“Hamlet: 16 x 8” no Teatro Sérgio Cardoso

O espetáculo Hamlet: 16 x 8, interpretado por Rogério Bandeira, com direção de Marco Antônio Rodrigues, faz temporada presencial e digital no Teatro Sérgio Cardoso, equipamento da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo e gerido pela Amigos da Arte. A obra cênica foi concebida a partir de trechos da memória e da experiência relatada pelo diretor e dramaturgo Augusto Boal no livro “Hamlet e o Filho do Padeiro: Memórias Imaginadas”. A peça fica em cartaz até 20 de fevereiro de 2022. A temporada presencial no Teatro Sérgio Cardoso acontece na Sala Paschoal Carlos Magno – já a temporada digital será exibida via plataforma Sympla Streaming.

A programação faz parte da iniciativa Teatro Sérgio Cardoso Digital, que oferece ao público a opção de assistir aos espetáculos de casa a partir de gravações realizadas no próprio espaço. Iniciada em 2021, a proposta se expande em 2022, com a exibição de mais espetáculos e de linguagens artísticas que dialogam com essa nova realidade no setor cultural.

No palco, o escritor e encenador é personagem e figura quase mítica. A cena vai peneirando os achados, os ditos e os quereres de Boal representando toda uma geração do teatro brasileiro refundada no Teatro de Arena. “Boal sempre sonhou, sem fazer o Hamlet no pequeno palco do Arena. Talvez porque duvidar dê sentido a um eterno caminho. Por isso, menos como homenagem, mais como procedimento, este artefato cênico na forma de monólogo dialogado assim se autobatiza”, diz Marco Antonio.

Os ecos vão ganhando materialidade – tempos, geografias e subjetividades são presenças que invadem o imaginário contemporâneo, brasilidades sublinhadas. “Boal é nossa inspiração. Estão em cena através da figura do Rogério Bandeira, inspirações vindas da “teoria” e da “prática” dele, Augusto. A teoria no caso é a memória Hamlet e o filho do Padeiro, que passeia com graça e talento pela vida e obra do Boal em depoimento pessoal e coloquial, sua autobiografia. A prática é o dito e feito no show Opinião: a esfera privada, familiar e hamletiana do ator em tensão dialética com a atuação pública. Boal e Bandeira são intérpretes e personagens “, reitera Marco Antônio.

“Meu contato com o livro, após participar com a Cia. do Latão de seu lançamento pela editora Cosac Naify, fez com que eu mergulhasse por outras vias na literatura de Augusto Boal, que não a pedagógica ou dramatúrgica. Dessa vez, me deliciei com a forma distanciada e poética em que o autor aborda sua vida: família, palcos, professores, ditadura, exílio, medos, mas principalmente, o experimento revolucionário em sua passagem pelo Teatro de Arena”, declara Bandeira.

Um capítulo em especial chamou a atenção do ator, pela ousadia e virada conceitual na trajetória artística de Boal, quando o Arena parte em excursão para o nordeste, como diz o autor: “ (…) Na infatigável busca do povo autêntico: ali, sim estaria o Brasil verdadeiro”.

“No interior de Pernambuco, Boal com sua pesquisa de campo, entra em uma igreja e se impressiona com a homilia de seu líder, cujo o apelido era Padre Batalha, que se unia a um quadro político efervescente. A figura do padre impressiona por sua sabedoria observadora, solidária e religiosa. Existe nela a contradição do amor indignado, empático, porém ríspido em seus diálogos e até violento, nada ingênuo. Uma personagem sedutora com amplo material para pesquisa de qualquer ator”, completa Rogério.

Notas sobre os reencontros e a montagem

Por Rogério Bandeira

Coincidências permeiam esse encontro. Marco Antonio Rodrigues na década de 80 foi ator do Bando, uma das principais referências do teatro de grupo paulistano, liderado pelo dramaturgo Plínio Marcos, muito próximo a minha família: amigo – irmão de meu pai, que era advogado criminalista e liberou alguns de seus textos durante a ditadura militar. Minha mãe também assinou alguns figurinos do Bando. Marco Antonio Rodrigues, parceiro fiel de Plínio Marcos, tornou-se um dos principais e mais combativos diretores do teatro brasileiro.

Mais de uma década depois, em 1995 fui aprovado por Marco Antonio Rodrigues no teste para a produção de um espetáculo com livre adaptação de Reinaldo Maia, inspirada na obra de Thèophile Gautier:  “Le Capitaine Fracasse”, que na década de 90, cinemas no mundo todo lotaram pelo sucesso retumbante que o filme A Viagem do Capitão Tornado, de Ettore Scola, causou. A obra fala sobre as dificuldades e superações de uma trupe ambulante, pelas estradas de terra da França, no século 17, desejosa por se apresentar na capital Paris. Nosso espetáculo não teve o mesmo sucesso retumbante do diretor italiano, mas o público que assistiu comenta até hoje sobre a contundência poética e inspiradora de 4 atrizes e 5 atores em cima de uma carroça. Levava o nome de: Verás que tudo é mentira, e inspirou a formação de outros grupos teatrais paulistanos.

A partir deste trabalho, nossa ligação solidificou-se e em 1997, junto com outros parceiros e parceiras, fundamos a Cia. Folias D’Arte. Ainda hoje, formadora e importante referência como grupo teatral de São Paulo.

Pouco tempo após a fundação do Folias, me afastei para novos rumos e possibilidades, sem perder o cordão umbilical com toda a experiência adquirida, principalmente quanto a importância da coletividade na arte. Marco Antonio continuou por anos como a principal liderança da companhia, inovando e combatendo artística e politicamente o cenário teatral, sem nunca perder o sentido democrático.

Seguimos cada qual seu rumo, mantendo o olhar na mesma direção, através do sonho coletivo e, como ele mesmo diz, re-existência. Marco Antonio Rodrigues se afasta da Cia. Folias D’Arte, e continua semeando sua indignação artística, poética, formando elencos com atores e atrizes brilhantes; gente coletiva.

Entre outros experimentos em palcos e áudio visuais, também continuei buscando aprimorar o conhecimento, sempre junto a grupos formadores:  por 4 anos no CPT (Centro de Pesquisa Teatral), coordenada diretamente por Antunes Filho e entre idas e vindas fiquei 12 anos trabalhando no núcleo central da Cia. do Latão liderada por outro parceiro sensível, potente e amigo em comum, Sérgio de Carvalho.

Assim como Augusto Boal, eu e Marco Antonio Rodrigues nos exilamos, mas para dentro de nós. Durante o exílio, cada um ao seu tempo conhece Cecília Boal, mulher rara, agregadora, guerreira, sonhadora e determinada, qualidades que vão nos reaproximando, até o trio se unir para a realização desse trabalho: Hamlet: 16×8

Faço uma primeira adaptação e converso com Cecília Boal sobre possível montagem. Ela imediatamente cede os direitos autorais. Então convido Marco Antonio Rodrigues para a direção. Após muitos anos, nos juntamos novamente, assim como Padre Batalha, sozinhos em nossos questionamentos, porém saudosos, amorosos e indignados. Mas o capítulo adaptado sobre o padre, não convence o diretor. Ele quer mais.

Marco Antonio Rodrigues inicia outra dramaturgia, cola com parte da minha adaptação para em sala de ensaio deixar espaço para trocas, histórias, pensamentos. Assim, juntos readaptamos o texto. A inspiração central, parte pela constatação da capacidade que a geração do Arena, tinha em somar ideias e coletivamente transforma-las em ação. Como quando o teatro sai da literatura e sobe ao palco.

Dessa forma nosso silencioso exílio tornou-se ação! Aos poucos, com pouquíssima verba, contatamos parcerias conquistadas em nossas trajetórias, que solidariamente compram a briga e unem-se a nós, para colaborar com o projeto. Hamlet 16×8, revela e questiona em cena, solidões que ganham companhia e amparo, mesmo em tempos de exílio, como força motriz para qualquer possível sonho coletivo.

Boal, encenador

Em 1964, dezembro, o primeiro grande ato artístico-cultural realizado como forma de reação a ditadura recém-instalada foi o show “Opinião”, criação de Augusto Boal com Nara Leão, João do Valle e Zé Kéti. O acontecimento é significativo sob vários aspectos: reúne antropofagicamente, o popular e o erudito, é dramático e épico (“Nosso show verdade era diálogo: João lia a carta que escreveu ao pai, ao fugir de casa, menino; lia para Nara, lágrimas rolando, lágrimas que vestiam suas palavras. Nara respondia com ternura, olho no olho, carinhosa: “Carcará, pega, mata e come”. – Augusto Boal), é caseiro e doméstico (foi ensaiado na casa de Nara), é manifesto e show, é morro e Zona Sul do Rio de Janeiro, é o Brasil transcultural: preto e branco.

Em 2018, o ano que não foi parido, o ato artístico-cultural da classe artística é um manifesto burocrático pela manutenção do Ministério da Cultura no governo conservador recém “eleito”. Sensível retrocesso.

Boal e o Teatro de Arena, Zé Celso e o Oficina, Amir Haddad e o Tuca do Rio de Janeiro, Silnei Siqueira e o TUCA de São Paulo. Essa geração de encenadores, cada um deles no seu quintal, faz a diferença.

Voltando um pouquinho no tempo: “[…] embora os escritores de 1922 não manifestassem a princípio nenhum caráter revolucionário no sentido político, e não pusessem em dúvida os fundamentos da ordem vigente, a sua atitude, analisada em profundidade, representa um esforço para retirar à literatura o caráter de classe, transformando-a em bem comum para todos. […]

Mergulharam no folclore, na herança africana e ameríndia, na arte popular, no caboclo, no proletário. Um veemente desrecalque […] “ Essa fala aí em cima é do Antonio Candido.

De certa forma, essa malta de encenadores e coletivos oriundos da metade do século passado, dá sequência ao povo de 22, com radical verticalidade. E com uma sensível diferença: eles trazem pra cena o sentido revolucionário.

O teatro é o carrefour das artes. Por ali passa tudo, literatura, música, poesia, artes visuais e o diabo a quatro. Justamente por isso, teatro extrapola o tablado, junta gentes de todos os tipos, ganha ruas, praças, mexe com costumes e viveres, vira movimento.

Boal tem absoluta consciência e visão disso. Por cada lugar que passa vai ajuntando gente, fazendo movimento, guerrilha cultural, disputa de pensamento. O Arena já é uma federação de artistas, de indivíduos singulares, a Feira de Opinião que cria em 68 junta artes de todas as áreas para responder o que é que cada um pensava do Brasil à época. Dá para imaginar a casa do Boal no exílio, ou as casas, porque a família que a essa altura era em número de quatro: Cecília, Fabian, Julian, Augusto, trocava de pais mais que de sapato. A casa mais parecia um quartel de exilados, militantes, agregados. Quartel é palavra imprecisa, aquilo mais parecia um terreiro encantado, lugar de folguedo onde se brinca e se canta. Lugar de festejo.

Boal não encena exclusivamente espetáculos: encena movimentos mundão afora, dentro ou fora do país. Inventa espetáculos perenes em cartaz hoje e sempre: Teatro do Oprimido, Teatro Jornal, Teatro Fórum, Teatro Legislativo. Boal encena a diversidade, o inconformismo, a utopia: Boal ensaia a revolução.

Boal tem um trunfo poderoso: Cecilia, atriz, psicanalista, personagem perenizada nos Caros Amigos do Chico Buarque. Cecilia está por trás e a frente do Arco Iris dos Desejos do encenador. Hoje e sempre. Cecilia segue, fazendo movimento, animando a massa, juntando tudo daqui e dali.

Tudo somado, aportamos aqui em 2021. Na linha, na senda, na estrada e no caminho dos Machado de Assis que nos deram grandeza, tino e precisão, cabe aqui nessa hora algum pensamento: a cultura brasileira na perspectiva artística tem lugar de ponta por conta do trabalho e da arte dessas gerações. De uma forma muito especial contaminou de um jeito determinante os viveres dessa terra. O Brasil era até 64 uma sociedade em formação: 64 aborta o corpo social. Isto permanece até hoje, com ênfase nesta disformidade que se reatualiza a partir de 2013 numa violência explicitada pelas desigualdades de todas as ordens desde a má distribuição de renda, passando pelas reiterações dos problemas congênitos oriundos da escravidão, do patriarcalismo, da hegemonia do mercado e da indústria cultural como forma de alienação dos conceitos de nação e de povo.

À guerra cultural instalada, o conservadorismo tenta se impor aos costumes. Em luta com as formas libertárias e humanistas consolidadas nos últimos anos. Ambiciosa e modestamente esse universo em disputa é o que tentamos pôr em cena nesse Hamlet: 16 x8.

Sobre o Teatro Sérgio Cardoso Digital

Em 2022, o Teatro Sérgio Cardoso reforça a proposta de transmitir as sessões das temporadas presenciais em cartaz no espaço para que o público assista de casa. O projeto, criado pela Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo e gerido pela Amigos da Arte, tem como objetivo principal democratizar o acesso à cultura a públicos variados, de outras cidades, estados e países, além de oferecer ao público da capital do Estado de São Paulo a alternativa de assistir aos trabalhos de forma remota. A ação também prevê a apresentação de temporadas exclusivamente digitais.

Desde a estreia, o projeto já recebeu quinze temporadas exibidas exclusivamente online duas temporadas híbridas, com sessões presenciais e digitais. A programação trouxe ainda temporadas com recursos de acessibilidade, como audiodescrição, tradução em libras e legendas em português.

A maior parte das gravações são realizadas com antecedência nos palcos do próprio Teatro Sérgio Cardoso, viabilizando as transmissões. Além disso, segue em curso a programação da #CulturaEmCasa, plataforma de conteúdo cultural gratuito, criada pela Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo e gerida pela Amigos da Arte, que oferece centenas de eventos artísticos em diversas linguagens, como dança, teatro, música e performance.

Serviço
Hamlet: 16 x 8

Local: Teatro Sérgio Cardoso – Sala Paschoal Carlos Magno (Rua Rui Barbosa, 153 – Bela Vista)
Teatro Sérgio Cardoso Digital – Transmissão pela Sympla Streaming

Temporada: De 28 de janeiro a 20 de fevereiro de 2022

Presencial: sextas, sábados e domingos, 19h

Digital: sábados, 19h

Ingressos:

Presencial – R$ 20 (inteira) – R$ 10 (meia entrada)

Digital – R$ 15, R$ 10 e R$ 5 (contribuição social)

Compras pelo site https://site.bileto.sympla.com.br/teatrosergiocardoso/

Atenção à diferenciação entre os ingressos para a temporada presencial e a digital. A sala de transmissão digital abre com 15 minutos de antecedência. É recomendável acessá-la antes do horário de início da apresentação.


Duração: 90 min
Classificação indicativa:  14 anos


Sobre a Amigos da Arte

A Amigos da Arte, Organização Social de Cultura responsável pela gestão dos teatros Sérgio Cardoso e de Araras e do Museu de Diversidade Sexual (MDS), trabalha em parceria com o Governo do Estado de São Paulo e iniciativa privada desde 2004. Música, literatura, dança, teatro, circo e atividades de artes integradas fazem parte da atuação da Amigos da Arte, que tem como objetivo difundir a produção cultural por meio de festivais, programas continuados e da gestão de equipamentos culturais públicos. Em seus mais de 15 anos, a entidade desenvolveu 58 mil ações que atingem mais de 25 milhões de pessoas.

Sobre o Teatro Sérgio Cardoso

Localizado no boêmio bairro paulistano do Bixiga, o Teatro Sérgio Cardoso foi inaugurado em 13 de outubro de 1980, com uma homenagem ao ator. Na ocasião, foi encenado um espetáculo com roteiro dele próprio, intitulado “Sérgio Cardoso em Prosa e Verso”. No elenco, a ex-esposa Nydia Licia, Umberto Magnani, Emílio di Biasi e Rubens de Falco, sob a direção de Gianni Rato. A peça “Rasga Coração”, de Oduvaldo Viana Filho, protagonizada pelo ator Raul Cortez e dirigida por José Renato, cumpriu a primeira temporada do teatro. Em 2020, o TSC cumpriu 40 anos de atividades, tendo recebido temporadas importantes de todas as linguagens artísticas e em novos formatos de transmissão, se consolidando como um dos espaços cênicos mais representativos da cidade de SP.