“Jacy” no Teatro Firjan SESI Centro

O Teatro Firjan SESI Centro recebe de 23 de março a 28 de abril, segundas e terças, às 19h, “Jacy”, espetáculo do potiguar Grupo Carmin, com Henrique Fontes e Quitéria Kelly no elenco, direção de Henrique Fontes, que também assina o texto junto a Iracema Macedo e Pablo Capistrano, e dramaturgia audiovisual de Pedro Fiuza. A obra foi contemplada com o Prêmio Myriam Muniz em 2012.

Sucesso de público e críticas por todos os 21 estados brasileiros em que foi apresentada, considerado um dos melhores espetáculos de 2015 pelo Jornal O Estado de São Paulo, “Jacy” conta a história real de uma mulher de noventa anos cujos pertences foram encontrados pelo diretor, dentro de uma frasqueira abandonada no lixo, em março de 2010, em uma das principais avenidas de Natal.

Em uma hora de espetáculo, a peça leva o público a acompanhar a vida extraordinária de uma mulher aparentemente comum, que nasceu em um engenho de cana-de-açúcar, atravessou a 2ª Guerra Mundial, a ditadura no Brasil, esteve no centro de um importante conflito da política no Rio Grande do Norte, viveu um amor estrangeiro e terminou seus dias sozinha em Natal.

– Quem assiste “Jacy” tem uma grande surpresa ao se deparar com a história dessa mulher, que quando contada no palco nos faz ver o quanto encantador e apaixonante foi a passagem dela por aqui. O público rí, chora, se emociona de várias formas, conhece um pouco da história do Brasil e aprende mais sobre as raízes do emaranhado político em que o país vem traçando nas últimas décadas. Após as apresentações nos deparamos com comentários do tipo: “pensei muito em minha mãe” ou “nunca pensei na solidão que minha avó pode estar sentindo” ou ainda pessoas que falam do quanto todos nós esquecemos da importância dos “velhos” em nossa sociedade, de como lidar com a solidão na velhice, enfim, sinto que é uma peça que ativa a humanidade do público de forma poética. –, comenta a atriz Quitéria Kelly.

Como é característica do Carmin drama e humor caminham juntos, a busca pelo riso não é gratuita e proporciona abertura para reflexão.

– “Jacy” é fruto de um processo de investigação e experimento que durou 3 anos. Na primeira fase pensávamos montar uma peça de ficção onde eu faria Jacy Homem e Quitéria Jacy Mulher. Isso durou um ano e quem estava produzindo os textos eram Pablo Capistrano aqui no RN e Iracema Macedo do RJ, e eu ia dando a amarra dramatúrgica. No entanto, após nosso primeiro ensaio aberto, percebemos que a potência dos fatos reais era enfraquecida pela ficção que passava ao largo do processo de investigação. Depois que assisti “Mi Vida Despues”, peça da dramaturga e atriz argentina Lola Árias, me deparei com a força da linguagem do teatro documental e isso revirou o processo. A forma, a cronologia dos fatos da investigação e os documentos descobertos no processo passaram a compor a dramaturgia. Pablo e eu passamos a escrever juntos a dramaturgia e pedimos a Iracema que – a exemplo de Jacy que mandava cartas mensais para o irmão no Rio – enviasse cartas como se fossem escritas para mim e Quitéria. Ela produziu uma narrativa epistolar que compõe a dramaturgia em alguns trechos –, comenta o diretor Henrique Fontes.

A princípio ao avistar a frasqueira abandonada o artista se interessou pelo objeto como potencial elemento de cena. Mas, ao chegar na sala de ensaio do Carmin e abrir a frasqueira, Henrique se deparou com vestígios de vida de uma mulher de 90 anos. Na ocasião o Grupo Carmin estava pesquisando temas para um novo espetáculo teatral, assim a frasqueira e seu conteúdo foi apresentado aos demais integrantes do Carmin o que levou o grupo a conduzir uma investigação que duraria 3 anos, até que em 2013 resultou no espetáculo de teatro documental intitulado “Jacy”.

– No primeiro momento tivemos medo de investigar, temendo que as pessoas pudessem querer nos processar (e uma ameaça realmente aconteceu), mas após a decisão de seguirmos com a montagem de forma documental era fundamental que descobrissemos a trajetória de vida de Jacy. O caminho foi completamente empírico e, assim como o encontro da frasqueira, muito fortuito. Começamos a ligar para os taxistas cujos cartões estavam na frasqueira até que um nos atendeu e pedimos que ele nos repetisse o trajeto de rotina que Jacy fazia com ele, aí chegamos a um supermercado e lá um embalador tinha o telefone da mulher que cuidou de Jacy durante seus últimos 20 anos de vida. Quando a encontramos sabíamos que tinhamos uma história. Tudo isso e o que descobrimos a partir da cuidadora de Jacy nós contamos na peça –, diz o diretor.

A dramaturgia audiovisual, termo cunhado pelo Grupo Carmin, vai muito além das projeções pois é a construção de uma narrativa em áudio e imagena que dialoga com a narrativa clássica, escrita, o texto falado. Mais do que projetar imagem é construir uma narrativa que hora dialoga com o texto e hora vai contra, ironiza, amplifica, reduz, criando uma dramaturgia própria.

“Jacy” é uma peça que envolve os espectadores tanto pela temática quanto pela sensibilidade. É uma obra delicada que transita entre História, poesia, humor e política, revelando fatos que muitas vezes ignoramos sobre o abandono dos idosos, a política oligárquica e o crescimento desenfreado das cidades brasileiras. A peça também foi motivo de várias monografias acadêmicas, desde os cursos de História, Teatro até à Medicina (Geriatria e Gerontologia).

– Creio que quando revelamos a trajetória de uma mulher comum e extraordinária que por muito pouco não teve sua vida esquecida, provocamos outros pesquisadores a questionar o que estamos fazendo com a memória dos mais velhos e como estamos cuidando dos nossos idosos –, comenta Quitéria.

Em 2019, com A Invenção do Nordeste, o Grupo Carmin foi vencedor das principais categorias de todas as premiações do Rio de Janeiro.

Ficha técnica

Texto: Henrique Fontes, Iracema Macedo e Pablo Capistrano
Direção: Henrique Fontes
Elenco: Henrique Fontes e Quitéria Kelly (stand-in: Juliana Linhares)
Dramaturgia Audiovisual: Pedro Fiuza
Trilha Sonora: Toni Gregório
Desenho de Luz: Ronaldo Costa
Direção de Arte: Mathieu Duvignaud
Técnicos de Som, Luz e Vídeo: Mateus Cardoso e Robson Medeiros
Assessoria de Imprensa: Ney Motta
Gestão de Redes Sociais: Rafael Teixeira
Designer: Daniel Torres
Realização: Grupo Carmin

Serviço

Teatro Firjan SESI Centro, Avenida Graça Aranha nº 1, Centro, Rio de Janeiro.
Informações: 21 2563-4163 e 2563-4168
Temporada: 23 de março a 28 de abril de 2020, segundas e terças, às 19h.
Ingresso: R$ 20,00 (inteira) e R$ 10,00 (meia).
Vendas na bilheteria de segunda a sexta das 11h30 às 19h30, sábados, domingos e feriados a partir das 17h ou pelo site https://bileto.sympla.com.br/event/64667/d/83393
Classificação: Não recomendado para menores de 12 anos.
Duração: 60 minutos