“No Campus” no Centro Cultural dos Correios

1.     Introdução

 

Moro próximo a um campus, onde há muitos anos estudo e faço longos passeios entre prédios rodeados por uma vegetação exuberante, lagos e caminhos com pontes.  Muitas vezes me deparo com estudantes, professores e outras pessoas que ali passam também apenas para caminhar e apreciar o espetáculo que é esta pequena  cidade universitária.

Sem qualquer propósito definido de trabalhar uma série sobre o assunto e por carregar sempre, dentro de minha bolsa lápis e papel, e apreciar a beleza do local, fui aos poucos fazendo croquis sobre um pedaço do caminho que me chamou mais a atenção, uma ave pousada em um galho, um sapo ao lado do lago e até esboços sobre o vai e vem das pessoa que saiam e entravam nos prédios dos mais variados tipos e com os mais variados humores estampados em suas faces – aborrecidas, alegres, enjoadas, falantes.

 

 

2. Justificativa-Conceito

 

Até o surgimento do movimento denominado Romantismo a definição de Arte era “como a ação de imitar a natureza” (Aristóteles), onde o valor da obra estava na forma fidedigna do objeto que o artista reproduzia em seu trabalho, ou seja, na concepção estética. Porém, a partir do início do século XIX em diante, a Filosofia passou a definir a obra da arte como uma criação subjetiva onde, em lugar da imitação, o artista exteriorizava seus sentimentos para trabalhar sua obra de arte, o que recebeu o nome de inspiração.

Com o desenvolvimento da sociedade industrial  a imagem do artista como gênio criador e a obra de arte como realização do belo  vai sendo deixada de lado. A arte não é mais vista como produção e contemplação da beleza para ser vista por outra perspectiva, tal como a expressão de emoções e desejos, a invenção de procedimentos inéditos para a construção de objetos, interpretação e crítica da realidade social. Assim, a beleza estética é cada vez mais associada a idéia de poética, a arte como trabalho, a obra de arte como um fazer.

 

Não sei precisar o momento no qual passei de mera expectadora, onde desenhava imitando a paisagem e onde meu olhar era analítico e até alheio, apenas contemplativo, para um outro momento onde me vi parte do entorno e completamente integrada no próprio espaço, o momento da inspiração, a expressão do meu mundo interior.

Posso afirmar que os croquis iniciais estavam ainda no momento de reprodução da arte, e passaram para um outro momento no qual me senti  parte da própria paisagem. Aqui cito Emanuele Cocia quando descreve a força que a sensibilidade tem sobre o ser humano. A vida animal é vista como uma vida sensível e cada animal se abre ao sensível de alguma forma, o que  proporciona uma capacidade de interação viva. A vida superior de cada animal não está na ação e nem na produção, mas no que é invisível aos meios. Temos ligação com o espaço onde tudo tem a consistência de uma imagem. É através do sensível que produzimos efeitos sobre a realidade enquanto viventes e através de nossa aparência que provocamos uma boa impressão para quem está ao nosso redor.  O ser humano é capaz de produzir imagens das coisas. Com o sensível, nossos sentidos se tornam mais apurados e as coisas passam a ter um significado.A imagem consegue capturar o real e transformar em algo que exista além de si mesmo. É exatamente assim que o sentido dá vida ao que não tem vida.

Ao trabalhar em artes visuais sempre tive meu olhar dirigido muito mais para a natureza, sua reprodução e proteção, fato comprovado quando se observa meus  trabalhos feitos em anos anteriores (vide site: http://nelmacamargo.com/). Estes trabalhos também não fogem à regra e o conceito está intimamente ligado ao meio ambiente, embora surjam outros elementos como prédios e pessoas.

Também manifesto relação com a denominada   “arte fantástica” que é a manifestação de um pensar e fazer voltados para a interpretação do mundo mediante um afastar-se da representação direta, criando um mundo mágico e simbólico.

E, por fim, represento a realidade com técnicas que se assemelham ao pontilhismo que é uma técnica de desenho e pintura, onde o artista utiliza pequenas manchas e pontos para formar as imagens. No caso utilizei pequenas imagens para dar a forma e cor.

 

3. Material Utilizado – Grafite, Editor de Software, Tinta Acrílica, Óleo, Aquarela, Nanquim, Colagem, Recortes

 

Tendo agora em mente que poderia desdobrar os rascunhos feitos para um trabalho maior, passei a idealizar como poderia criar e quais os materiais que poderia usar.

Tenho utilizado o computador em trabalhos anteriores, o qual considero uma excelente ferramenta para a manipulação e criação de formas e observação de cores, através de editores como o Adobe Photoshop e Corel Draw. Fotografei o cenário, transportei para o computador e estudei qual a forma e qual midia poderia utilizar para sua composição.  Pensei inicialmente em pintura acrílica sobre canvas, mas no decorrer do tempo, deixei-me levar e a série foi criada com quase todas as mídias que aprendi: Tinta Acrílica, Óleo, Aquarela, Nanquim.

As telas em algodão foram previamente trabalhadas com gesso acrílico  para fornecer um fundo mais suave para as tintas. As primeiras camadas foram dadas com tinta acrílica e os detalhes, no final, algumas delas com tinta a óleo. Já os trabalhos sobre papel foram pintados em uma folha inicial para depois serem recortados e colados na mesma folha, criando assim uma nova versão do mesmo trabalho.

Para criar novas relações pictóricas muitos artistas se utilizaram do uso de materiais variados. A colagem, por exemplo, entrou para o mundo das artes em 1912 e é utilizada até o momento. Com essa técnica – utilizada em alguns trabalhos – passei a manipular imagens já existentes e incorporar pedaços ao mundo imaginário que já havia transportado para a tela. As colagens romperam com a espacialidade pré-existente que se deriva da perspectiva.

 

4. Imagens

 

São 16 trabalhos nos quais trabalhei acrílica sobre tela e papel, e técnicas mistas, alguns deles iniciados com Editor de Software (Photoshop) para  posteriormente com acrílica e óleo. Em paralelo trabalhei uma pequena série, com 12 imagens, tamanho A4 onde retrato sob a forma de caricaturas, as pessoas que passaram por mim e a qual denominei de “Os Enjoados”.

 

Nelma Camargo

Serviço:

 

Exposição: “No Campus”

Abertura: 29 de janeiro de 2020, às 19h

Visitação: de 30 de janeiro a 22 de março de 2020

Horário de funcionamento: de terça a domingo, das 12h às 19h.

Local: Centro Cultural Correios Rio de Janeiro

Endereço: Rua Visconde de Itaboraí, 20 – Centro, Rio de Janeiro.

Tel.: 2253-1580 (recepção)