“Os Únicos” no SESC Tijuca

Sensação na primeira metade dos anos 90, a dupla de cantores fakes consagrados Claymara Borges & Heurico Fidélis está de volta aos palcos. Prestes a completar bodas de desaparecimento, eles são tema do espetáculo “Os únicos”, que estreia em 10 de janeiro no SESC Tijuca, com a atriz e roteirista Lucília de Assis (indicada ao Prêmio Shell de Melhor Dramaturgia por “Não peça”) e o ator, músico e artista visual Alexandre Dacosta, para curta temporada de quatro semanas. A direção é de Dadado (Fabiano de Freitas, indicado ao Prêmio Cesgranrio de Melhor Direção por “3 maneiras de tocar no assunto”) e a direção de produção é de Maria Siman.

Em cena, Lucília e Alexandre são pesquisadores eruditos, especialistas no fenômeno musical fabricado Claymara Borges & Heurico Fidelis. Numa conferência, eles se apropriam da trajetória dos artistas para elaborarem uma crítica à fabricação de mitos. A partir de músicas, imagens, gravações e recortes de jornais que comprovam a carreira da dupla, os palestrantes levantam a questão sobre o que significa existir no mundo contemporâneo.

“Claymara Borges & Heurico Fidelis são uma sátira ao sucesso convencional que muitos perseguem. Aquelas armações que mal aparecem no mercado e já recebem tratamento de artistas consagrados”, lembra Lucília de Assis. “Já ‘Os Únicos’ são fãs da dupla. Eles se interessam pela farsa, pela vida como invenção e como obra de arte”, explica. “A ideia é falar sobre a criação do casal performático, uma camada a mais para filosofar sobre a existência. Sendo pensadores, ‘Os Únicos’ podem explorar outros campos”, completa Alexandre Dacosta.

Diretor do espetáculo, Dadado considera Claymara e Heurico um programa performático sofisticadíssimo, que desestabiliza a ideia de verdade, tão importante de pensarmos em tempos de fake news, dos mitos fabricados e sua chegada ao poder. “Reinventamos os mitos, a dupla sucesso, pegando emprestado a palestra como linguagem, mas sem abrir mão do teatro e da sua potência de inventar mundos. E o humor torna isso ainda mais forte e comunicativo”, conta.

CLAYMARA BORGES & HEURICO FIDELIS

Entre 1991 a 1996, Lucília de Assis e Alexandre Dacosta encarnaram a dupla de cantores e compositores famosos e premiados Claymara Borges & Heurico Fidelis, uma metalinguagem que discute as engrenagens comerciais fabricantes de falsas celebridades. Os personagens fictícios, que surgiram já como estrelas de renome, com diversos hits nas paradas de sucesso, foram figurinhas fáceis nos circuitos artísticos do Rio de Janeiro e de São Paulo, parodiando os clichês de fama. Com seus figurinos e acessórios kitsch, Claymara e Heurico tocaram seu repertório irônico (que passeia do bolero ao samba-canção, passando pelo xote e pela guarânia), com letras românticas e melodias bem trabalhadas, e performaram em diversos contextos midiáticos, conquistando inúmeros fãs.

A repercussão foi tanta que Claymara e Heurico que participaram (de verdade!) de inúmeros programas de televisão como Jô Soares Onze e Meia (SBT), Programa Ronnie Von (TV Gazeta e CNT), Vídeo Show (Rede TV), Xou da Xuxa (Rede Globo), Clodovil Abre o Jogo (TV Gazeta e CNT), entre outros. “A dupla foi criada para ser um sucesso real, ainda que fabricado. A ideia era ironizar os mecanismos comerciais que fabricam sucessos do dia para a noite”, explica Alexandre Dacosta. “Assim forjamos o próprio sucesso, com direito a disco de ouro falso, glamur e tudo mais. Inventamos dois personagens, demos biografias a eles e compusemos mais de 60 músicas dentro do universo de Claymara Borges & Heurico Fidélis”, lembra.

Uma das performances mais memoráveis foi no prêmio Sharp da música, em 1993, em que chegaram numa Mercedes branca com motorista e seguranças, repórter, câmera de TV e iluminador. Tudo fake para alimentar o conceito da dupla. O repórter Bermuda Bastos, alter ego do jornalista Joubert Martins, um dos criadores Rádio Fluminense, conferia a todas as apresentações um clima de estreia VIP ao entrevistar os presentes como se fossem verdadeiras celebridades.

“Criamos uma dupla que já existia, com uma carreira consolidada. Quem não conhece é porque é desinformado”, brinca Lucília de Assis, casada com Alexandre há 32 anos. “Não navegamos no senso comum. Alexandre e eu temos uma piração compartilhada. Eu nunca poderia ter me casado com uma pessoa que não tivesse um grau de delírio. Deliramos juntos”, diz Lucília.

Em seis anos, Claymara Borges & Heurico Fidélis gravaram CD “Cascata de Sucessos” (Leblon Records 1992) – coletânea dos maiores sucessos da dupla; realizaram a exposição coletiva “Salão de Belezas”, no Paço Imperial, em que 30 artistas plásticos criaram obras em homenagem aos dois; lançaram sua grife “Simulacro” com desfile-show no Parque Lage; produziram um jornalzinho; e comandaram o programa de rádio “Na Fama com Claymara & Heurico”, na RPC FM, vice-líder em audiência naquela época. Em seguida, ganharam uma dupla de covers, interpretada por Lucília e Alexandre.

LUCÍLIA DE ASSIS E ALEXANDRE DACOSTA

Lucília de Assis e Alexandre Dacosta se conheceram no Tablado, em 1982, quando faziam o espetáculo “Capitães da areia”, dirigido por Carlos Wilson. Logo depois trabalharam juntos em “De noite com uma luz”, de Louise Cardoso. Ela atuava e ele, tocava cavaquinho. Fizeram outros musicais, se tornaram amigos, começaram a compor, unindo teatro e música. Para montar Claymara e Heurico, Lucília e Alexandre se dedicaram a uma minuciosa pesquisa sobre antigas duplas humoristas, como Alvarenga e Ranchinho, Jararaca e Ratinho, Cascatinha, Inhana e o Duo Glacial, de Araraquara. Além de Nelson Ned e Roberto Carlos, que vivem de vender o amor.

Lucília de Assis é atriz e autora. Atuou em “Capitães da Areia”, direção de Carlos Wilson; “De noite com uma luz”, direção de Louise Cardoso; “Cuidado: Vende-se”, com direção de Anselmo Vasconcelos. Na Rede Globo fez “O último desejo”, com direção de Antônio Carlos Fontoura, e participações em novelas e seriados. Desde 1998 integra o grupo de humor O Grelo Falante, com o qual lançou os livros “Tapa de humor não dói – A hora e a vez das mulheres gozarem”, “TOMALADACÁ – O grande livro das relações”; “Livro de bolsa – Minutos de ignorância” e “Coisa de mulher”. Sob a supervisão da turma do Casseta e Planeta, criou e redigiu o programa Garotas do Programa, na Rede Globo. Roteirizou e atuou no filme “Coisa de mulher”; atuou no musical “Avenida Réveillon”, com dramaturgia e direção de Fátima Valença. Escreveu e atuou na peça “Antessala”, com direção de Guida Vianna; redigiu e apresentou o programa ao vivo O Grelo Falante na Rádio Roquette Pinto; escreveu e atuou no monólogo “Não peça”, com direção de Bianca Byington e no espetáculo “O grelo em obras”, com direção de Dadado.

Alexandre Dacosta é artista visual, ator, músico, cineasta e poeta. Professor do curso Fundamentação na Escola de Artes Visuais do Parque Lage / RJ (2011-2016). Realizou 17 exposições individuais no Rio, São Paulo, Pernambuco e Uruguai, além de mais de 100 coletivas no Brasil e no exterior. Recebeu dois prêmios de pintura: IBEU (1985) e Secretária de Cultura no XVIII Salão de Belo Horizonte MG (1986). Em 1981, cria com Ricardo Basbaum a “Dupla Especializada” e dois anos depois o Grupo 6 Mãos, com Basbaum e Barrão. Como ator foi protagonista de cinco longas-metragens, 10 curtas, participou de mais de 40 filmes, 17 peças de teatro e musicais, seriados, minisséries e novelas. Como cantor, músico e compositor produziu o álbum “Antimatéria” (Universal Music-Agracadabra, em 2017) com 13 canções autorais que estão nas plataformas digitais de música e o CD livro “Adjetos” (Editora 7 letras, em 2011) com 18 canções para esculturas, além de fazer trilhas sonoras para filmes e peças de teatro. Como diretor e roteirista produziu 14 filmes de curta-metragem (seis ficções, três documentários e cinco experimentais), ganhando 11 prêmios em festivais. Como poeta lançou o e-book “Autopoese” (editora Lacre, em 2017), “Memória do Vidro” (2016), e o livro “[tecnopoética]” (editora 7 Letras, em 2011). Faz arte sonora – “Rádio Varejo” e participa de revistas, antologias, saraus e com áudios de poesias em programas de rádio.  Atualmente, está finalizando o documentário de longa-metragem “A Sobrancelha é o bigode do olho”, baseado na obra do jornalista Apparício Torelly, o Barão de Itararé.

FRASES DO ESPETÁCULO

 

Eles não são eles mesmos e você não será o mesmo depois de assisti-los”;

 

Claymara Borges e Heurico Fidélis eram uma espécie de Mickey Mouse e Michael Jackson. Todos os conheciam, mas poucos sabiam quem estava por trás das máscaras”;

 

Algumas dúvidas??? Se vocês estão entendendo tudo é porque nós estamos explicando muito mal. Não estamos nos fazendo entender. Queremos criar setas que indiquem caminhos para mais dúvidas”.

OS ÚNICOS

Temporada: de 10 de janeiro a 2 de fevereiro (de sexta à domingo, às 19h).

Local: Sesc Tijuca – Teatro II – Rua Barão de Mesquita 539. Tel.: 4020-2101.

Duração: 80 min. Classificação indicativa: 12 anos. Lotação: 50 lugares. Gênero: comédia musical.

Ingressos: Grátis (PCD), R$ 7,50 (habilitados Sesc), R$ 15 (meia-entrada) e R$ 30 (inteira).

FICHA TÉCNICA:

Texto: Lucília de Assis

Músicas e atuação: Lucília de Assis e Alexandre Dacosta

Direção: Fabiano de Freitas – Dadado

Direção de produção: Maria Siman

Produção executiva e assistência de direção: Bruna Ayres

Projeto de luz: Herbert Said

Figurinos: Lucília de Assis

 

Vídeos:

Edição: Alexandre Dacosta. Roteiro: Alexandre Dacosta, Lucilia de Assis e Fabiano de Freitas. Técnico videomapping: André Boneco. Edição de som: Fernando Lauria.

 

Fotografia: Tomás de Assis Dacosta

Projeto gráfico: Mais Programação Visual

Assessoria de imprensa: Catharina Rocha – Máquina de Escrever Comunicação

Idealização: Os Únicos

Realização: Primeira Página Produções Culturais