O subnormal – Uma história de baixa visão

No ano de 2004, o ator Cleber Tolini nasceu de novo. Ele tinha 24 anos quando um episódio marcaria (e mudaria) sua vida para sempre. Ele se submeteu, na ocasião, a uma neurocirurgia para a retirada de um tumor. A operação foi bem-sucedida, mas afetou sua visão, deixando-a com 20%. O ator passou a integrar um grupo desconhecido por ele (e por muitos de nós), o de Visão Subnormal, também denominado de Baixa Visão. O tempo passou e, em 2018, o ator decidiu expor no palco as transformações pelas quais sua vida passou e, o melhor, o tanto que aprendeu com sua nova condição. Em julho do mesmo ano, “O subnormal – Uma história de baixa visão”estreava no Teatro Parlapatões, em São Paulo. Ele não imaginava que o solo, dirigido por Djalma Lima, despertaria o interesse do público a ponto de levá-lo a Nova York, onde participou do Festival de Monólogos Don Ivan Garcia Guerra no ano de sua décima edição. Pois agora essa “comédia documental”, como o ator a define, fará sua primeira temporada no Rio de Janeiro. A peça aporta no Teatro Candido Mendes, em Ipanema, onde poderá ser assistida de 04 de outubro a 10 de novembro, sempre de sexta a domingo.

Quando o assunto Deficiência Visual vem à baila, o primeiro caso que, certamente, nos vêm à cabeça é o da cegueira. Acontece que esse é um (o principal, talvez) dos males que afetam o grupo em questão. Mas há muitos outros, e o dos pacientes diagnosticados com a chamada Baixa Visão abarca quatro de cada cinco brasileiros apontados como deficientes visuais. E é a esse grupo no qual Cleber Tolini passou a estar inserido. Tal mudança exigiu dele providências práticas, muitas delas urgentes, e outras tantas adaptações. Um caminho fácil seria o da autocomiseração, o que está longe de fazer seu estilo. A vida mostrava outra realidade, cheia de peculiaridades.

Quem usa o metrô como meio de transporte certamente já reparou. O chão das estações traz uma passarela que parece formada por peças de Lego, o famoso jogo de armar criado na Dinamarca. A passarela em questão tem um nome: piso tátil. E sua função é a de orientar os deficientes visuais. Muitos de nós já nos perguntamos o porquê de eles serem coloridos. O uso da cor serve justamente para auxiliar as pessoas de… Sim, acertou quem pensou nas de baixa visão. E o exemplo supracitado, esclarecedor – e, portanto, desconhecido pela maioria de nós – é um dos muitos com os quais Cleber Tolini passou a conviver. E os leva para o palco.

O ator está sozinho no espaço cênico. Pisa um tapete claro cujo centro traz um círculo vazado. À sua volta, caixotes e cubos, alguns também vazados que, em comum, têm a cor clara. A narrativa mostra-se como uma conversa franca com o público. Ele fala de sua trajetória e inclui também no relato quatro histórias de outros personagens, reais como ele. Eles integram uma lista de 20 nomes por ele entrevistados desde que decidiu levar à cena seu depoimento.

São “causos” como o de Paulo Galvão, que tem apenas 5% da sua capacidade de enxergar. Há relatos de Sonny Pólito, do grupo Bengala Verde – cor que especifica as pessoas da Baixa Visão. Esse grupo é atuante no whatsapp, e Cleber passou a integrá-lo em 2018.

A ideia inicial do ator era a de fazer do solo algo no estilo “comédia stand up”. Mas os processos de construção do texto e o da cena, conduzidos por Djalma Lima, abriram horiozntes mais amplos e poéticos. A dramaturgia ganhou novo rumo com a entrada no projeto de Paula Souza Lopez, especialista em Acessibilidade Cultural e profissional de audiodescrição. Eles sabiam que não poderiam cometer um erro: o de tratar do tema de forma superficial. E o ator queria que o trabalho fosse o mais acessível possível. E o projeto rumou para uma encenação inclusiva, que tem no preparo do narrador as ferramentas que possibilitam, por exemplo, o que é chamado de audiodescrição integrada.

E tal peripécia resulta num espetáculo bem-humorado e ao mesmo tempo comovente, cuja função vai (muito) além de informar ou esclarecer. Acaba por transformar aqueles que quiserem viver essa experiência. E são todos muito bem-vindos.

Ficha técnica:

Texto e interpretação: Cleber Tolini

Direção: Djalma Lima

Direção de movimento: Lena Roque

Iluminação: Giuliano Caratori

Cenário e figurino: Clau Carmo

Audiodescrição integrada: Paula Lopez

Revisão de texto: Cybele Gianini

Locução: Rosi Campos

Depoimentos: Paulo Galvão, Sonny Pólito, Josielle e Marcelino Tavares

Fotos: Eduardo Petrini

Vídeos: Dois Pontos Produções

Assessoria de imprensa: Christovam de Chevalier

Projeto gráfico: Alê Pessoa e Osvaldo Piva

Apoio: Grupo Bengala Verde

Serviço:

Temporada: de 04 de outubro a 10 de novembro

Dias e horários: de sexta a domingo, às 20h

Local: Teatro Candido Mendes (Rua Joana Angélica, 63, Ipanema. Tel: 2523-3663)

Ingressos: R$ 50 (inteira) e R$ 25 (meia)

Capacidade: 103 lugares

Duração: 60 minutos

Classificação: 12 anos

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