“Não peça” no Laura Alvim

Espetáculo solo de Lucília de Assis com direção de Bianca Byington, “Não peça” chega à terceira temporada a partir de 7 de agosto na Casa de Cultura Laura Alvim, com apresentações quartas e quintas às 20h. Numa interpretação admirável, Lucília dá vida à Jandira, funcionária de um teatro em que desempenha as funções de faxineira, bilheteira e baleira, além de morar no local de trabalho. Um dia, quando o elenco da peça em cartaz fica preso em um engarrafamento, ela recebe uma atribuição a mais: segurar o público até a chegada dos atores. É assim que a funcionária, testemunha de inúmeras peças e habituada a subir no palco apenas para varrer, passa a ocupar a linha de frente para contar suas histórias e receber seus primeiros e, quem sabe, últimos aplausos.

A ideia para o espetáculo surgiu em 2017, durante o período em que Lucília se recuperava de uma fratura no pé. “Tinha um tempo enorme pra mim e comecei a revisitar minhas histórias infância, em Niterói, nos anos 1960”, lembra a atriz e autora. “O espetáculo fala da poética da comédia e da tragédia humana. É sobre essa personagem que mora nos fundos do teatro, mas que tem uma história de vida baseada nas minhas lembranças, nem sempre tão felizes. Uso o teatro como uma forma de teatralizar essas memórias, para tirá-las da esfera da realidade e transformá-las numa ficção, uma forma de não ficar só no trágico”, explica.

Nem toda vida daria um filme. Mas em “Não Peça”, a vida da funcionária Jandira, com certeza, acaba dando em uma peça. “Não existe ninguém como Jandira. Ela veio menina do barro seco de Cantochão direto para a caixa preta de um teatro, sem escalas. Analfabeta, aprendeu a ler com os textos do teatro. Seu universo não é mundano, disperso, superficial. Tudo pra ela é existencial. Jandira é a encarnação da visão de mundo de Lucília de Assis, transbordante de humor e poesia”, completa a diretora Bianca Byington.

Lucília de Assis e Bianca Byington se conheceram no teatro em 1982, na temporada de “Capitães da Areia”, e só em “Não peça” voltaram a trabalhar juntas. A elas, se juntou a produtora Maria Siman, um encontro feliz com antigos e novos parceiros que formam a pequena grande equipe fez brotar o espetáculo. A temporada tem o Apoio Institucional da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa/FUNARJ e da Casa de Cultura Laura Alvim – Fundação Anita Mantuano.

FICHA TÉCNICA

Texto e interpretação: Lucília de Assis. Direção: Bianca Byington. Direção de produção: Maria Siman. Assistente de direção: Pedro Pedruzzi. Figurino: Dora de Assis. Projeto gráfico e fotos: Alexandre Dacosta. Assistente de produção: Fernanda Silva. Realização: Lucília de Assis e Primeira Página Produções.

 

SERVIÇO

“Não peça”

Temporada: de 7 a 22 de agosto – quartas e quintas às 20h.

Local: Casa de Cultura Laura Alvim – Av. Vieira Souto 176, Ipanema. Tel.: 2332-2015.

Ingresso R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia). Classificação indicativa: Livre.

Lotação: 120 lugares. Gênero: comédia. Duração: 60 min.

DESTAQUES

“Aproveitando as frestas das rachaduras do terreno ressecado lá de casa, comecei a plantar uns capinzinhos gordura, uns matinhos brabo, umas praguinhas mimosinhas… e não é que nosso pedaço de chão ganhou qualidade??? Transformei o barro seco socado num oásis verdesejante! E eu nunca mais parei de fazer brotar. Planto nas frestas dessa vida de cimento, mas planto. A gente não acredita, mas se a gente plantar a vida brota pelas frestas” – trecho de “Não peça”.

“No espaço experimental da Casa Quintal faz-se uma “NÃO-PEÇA”. É o teatro como alegoria do país bem-humorado, ainda que cheio de dores, perdas e incertezas. O país-personagem vagando do real da alienação, ao impacto da sensibilidade de uma direção segura de Bianca Byington, a existência real ou fantasiosa de uma nova Cabíria, vivida delicadamente por Lucília de Assis. Da vendedora de balas e amendoins, a bilheteira e a atriz que se libera de ser uma espécie de incerteza humana. Ora, qual a razão de ser de um monólogo na “dança” emocional dos espectadores? O ser humano querendo ser mais do que é? Ou seja, como personagem é sim muitas coisas entre reminiscências e a história real de vidas cortadas pela pobreza de personagens que não aconteceram. Como atriz, a ousadia de suas intensidades no texto, nos movimentos corporais e na interpretação. A delicada direção se associa aos riscos dos longínquos discursos da personagem onde tudo pode ser verdade, como invenção do que é dito pela atriz que distrai os espectadores antes do início da peça “NÃO-PEÇA”. E num momento tão feio do nosso emporcalhado país, o humor como processo dialético de ainda nos sentirmos vivos! Bianca e Lucília trabalham o querer-viver além do teatro que imita a TV, e se torna pobre, velho e criminoso como a nossa atual política entreguista! A “NÃO-PEÇA” sensibiliza pela sua delicada generosidade na investigação de uma vida comum, ainda que fantasiosa da personagem. Essa compreensão é, sim, uma rica experiência para quem representa e para quem acompanha essa pequena/grande atriz cômica! Parabéns às MENINAS! depoimento do cineasta Luiz Rosemberg Filho.

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