Lançamento do CD do Ricardo Tacuchian e Sergio Roberto de Oliveira

Comprovando a imortalidade da arte, sua transcendência e legado, chega às lojas físicas e virtuais o CD “O piano de Sergio Roberto de Oliveira e Ricardo Tacuchian”, reunindo obras do saudoso músico tijucano, falecido há quase um ano, e do consagrado maestro e compositor, todas interpretadas pelas pianistas Miriam Grosman e Ingrid Barancoski. O disco é um lançamento da gravadora carioca A Casa Discos, que tinha Oliveira como proprietário e gestor, e agora se renova, determinada na manutenção da memória do seu criador e também no desenvolvimento de novos projetos eruditos e instrumentais, tendo à frente seu amigo e renomado clarinetista Cristiano Alves.

            Resultado de uma recente parceria e amizade entre os compositores, o CD começou a ser concebido em 2015, quando Tacuchian procurou a gravadora para produzir o disco “Água-forte: duo Grosman-Barancoski interpreta Tacuchian”. Segundo o próprio Tacuchian, “o processo de gravação em estúdio nos aproximou, eu, ele e as duas pianistas, Miriam e Ingrid. Assim tive a oportunidade de conhecer melhor sua personalidade sempre gentil, sua capacidade de trabalho e liderança e, acima de tudo, sua musicalidade. Ao concluirmos o projeto que nos deu tanto prazer, não só pela realização artística mas também pelo contato humano que desfrutamos, Sérgio me procurou para consultar se eu concordaria em realizar outro CD, agora em parceria com ele, com as mesmas pianistas, por quem ele passou a ter grande apreço pelo talento e arte, e pela integridade e seriedade de ambas”.

            A produção do CD foi, de certa forma, interrompida por conta da doença fatal do compositor e produtor, diagnosticada em 2016. Todavia, neste mesmo ano, Sergio Roberto de Oliveira não abdicou de muitos de seus planos. Viveu um intenso processo interno de reformulação de valores e da vida. Na rede social ele escreveu sobre 2016: “Foi um ano bem diferente do que eu poderia imaginar. Os votos de saúde acabaram não sendo muito efetivos, mas um outro, que ninguém desejou, fez a diferença: sabedoria. Sim, foi um ano de aprendizado, autoconhecimento, fé. Quem me conhecia e ficou, digamos, 10 meses sem me ver, não me reconheceria. E não falo da magreza, mas das mudanças profundas em tudo dentro de mim”.  O músico veio a falecer no dia 11 de julho de 2017 e, praticamente em seu leito de morte, concluiu sua obra-prima, a ópera “Na Boca do Cão” e terminou, já doente, seu último CD Paineiras, com uma obra sua de mesmo nome.

O CD “O Piano de Sergio Roberto de Oliveira e Ricardo Tacuchian” nasce, segundo o maestro, com um novo significado: “uma homenagem ao compositor que, apesar de partir tão cedo, deixou fortes marcas no panorama musical brasileiro de sua geração. Seu legado continua produzindo frutos”. A primeira parte do disco reúne peças de Oliveira para piano: “Brasileiro”, “Prelúdios Tijucanos” (em três movimentos) e “Atonas”. As composições de Tacuchian ocupam a segunda parte do CD, com as obras “Ernesto Nazareth no Cinema Odeon”, “A Bailarina” (com dez movimentos) e se encerra com “Le Tombeau de Alejadinho”.

 

O Repertório:

 

SERGIO ROBERTO DE OLIVEIRA

 

Brasileiro   (Miriam Grosman)

Obra escrita em 2014 “em homenagem ao mestre César Guerra-Peixe, no ano de seu centenário”.  A música é dedicada à pianista Midori Maeshiro. A brasilidade velada da peça, sugerida pelo título e pela homenagem a Guerra-Peixe que seguia um credo nacionalista, evita, no entanto, recursos nativos óbvios. Sua construção é inovadora, começando com uma textura bastante transparente que vai se adensando, à medida que a obra progride para o final quando o piano é tratado percussivamente. Uma pequena coda, com acordes arpejados e de duração longa, retoma a transparência inicial da música.

 

Prelúdios Tijucanos    (Miriam Grosman)

Os Prelúdios Tijucanos, obras com uma fluência livre, escritas em 2015, são evocativas do bairro onde o compositor nasceu e sempre viveu. A Tijuca é o trecho urbano da zona onde floresce uma parte da Mata Atlântica, chamada Floresta da Tijuca. O compositor compõe um painel que lembra a sua infância e, para isso, usa indicações expressivas mais poéticas do que as convencionais. O Prelúdio nº 1 é Alto da Boa Vista, com a indicação “Fluid” (sic). É “dedicado ao Maestro Beetholven Cunha, com sinceridade e admiração”. O segundo Prelúdio, Amendoeiras, tem a indicação “Fluindo, como a vida” e é “para a querida Erika Ribeiro, que há tanto tempo eu queria dedicar uma música, um pedacinho da minha infância”.  O terceiro Prelúdio, O Céu e o Balão Azul, oferece a indicação “Sonhando” e é dedicado “para o Serginho”.

 

Atonas    (Ingrid Barancoski)

O compositor se inspirou na Sonata op. 1 de Alban Berg, optando por uma estrutura ternária com reexposição da primeira ideia, trabalhando todo o tempo com um cromatismo sem uma tonalidade definida e, como a op. 1 de Berg, escrita em apenas um movimento. Aliás, Atonas é um anagrama de Sonata. Na partitura, no local destinado ao autor, vem escrito GERB NABLA, também um anagrama de Alban Berg. Não há indicação de data da composição.

 

 

 

RICARDO TACUCHIAN

 

Ernesto Nazareth no Cinema Odeon   (Miriam Grosman)

Obra encomendada e estreada pelo pianista Alexandre Dias e a ele dedicada, em 2014, evoca a figura do compositor brasileiro Ernesto Nazareth que morreu num hospício devido a distúrbios mentais que apareceram no final de sua vida. Tacuchian imaginou a volta de Nazareth, depois de morto, ao Cinema Odeon, onde ele lançou a maioria de seus sucessos. A célula Sol-Fá#, repetida várias vezes, representa uma força que o atrai de volta para o Além. No meio de seu delírio ele tem a impressão de ouvir algumas de suas valsas ou de seus tangos brasileiros. Tacuchian não usou temas de Nazareth para compor esta música.

 

A Bailarina    (Ingrid Barancoski)

As dez pequenas peças da Série A Bailarina foram escritas quando nasceu o primeiro neto do compositor, Felipe Lamy Tacuchian, em 2007. Várias profissões são citadas e só no último movimento aparece o nome do Felipe com a bailarina. A obra foi concebida para ser tocada de dois modos: por pianistas iniciantes ou por concertistas. A primeira audição da Série foi feita por José Wellington, no Rio de Janeiro, no mesmo ano de sua criação.

 

Le Tombeau de Aleijadinho   (Ingrid Barancoski)

Obra de 2011, inspirada pelo autor quando visitou o túmulo de Aleijadinho, na Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição de Antonio Dias, em Ouro Preto. O compositor concebeu a ideia de escrever um Tombeau, em homenagem ao grande mestre da arquitetura e escultura barroca brasileira (Antonio Francisco Lisboa, Vila-Rica, hoje Ouro Preto, 1738-1814). A obra é constituída por uma introdução, com sugestões de sinos de igreja, seguida de uma melodia nostálgica em estilo antigo. A primeira audição para piano (existe a versão sinfônica) foi realizada no Rio de Janeiro por Miriam Grosman, em 2013.

 

 

SÉRGIO ROBERTO DE OLIVEIRA

 

Sérgio Roberto de Oliveira nasceu no Rio de Janeiro em 1970, falecendo na mesma cidade em 2017, com 47 anos incompletos. Graduado em Composição pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), na classe de Dawid Korenchendler, teve, também uma orientação informal com Guerra Peixe. Sua carreira de compositor foi vertiginosa, principalmente depois que ele fundou um coletivo de compositores, intitulado Prelúdio 21, e que apresentava, mensalmente, uma estreia contemporânea de cada compositor, durante os últimos 10 anos de sua vida. Sua produção cobriu desde peças para instrumentos solistas, conjuntos de câmara, música coral, música sinfônica e ópera. Importantes grupos camerísticos gravaram sua obra como o Quarteto Radamés Gnattali, Quinteto Lorenzo Fernandez, Trio Capitu, Trio Paineiras, Duo Santoro, Duo Bretas-Kevorkian, GNU, entre outros. Sua obra Phoenix, para clarineta e orquestra, foi gravada pelo clarinetista Cristiano Alves, com a Orquestra Sinfônica Nacional, sob a regência do maestro Tobias Volkmann. Sua ópera de câmara, Na Boca do Cão, em parte escrita em seu leito de morte, teve uma vitoriosa temporada no Centro Cultural Banco do Brasil, apresentando a soprano Gabriela Geluda.

Paralelamente à sua carreira de compositor, Sérgio Roberto desenvolveu em seu curto período de vida, uma intensa liderança musical, promovendo festivais como a Bienal Música Hoje, proferindo palestras, inclusive no exterior, como nas universidades inglesas e americanas, ensaiando uma digressão no mundo do cinema com a direção do curta Ao Mar, em 2014,  ou criando a música para os filmes A dívida, que teve uma indicação no Festival Internacional de Cinema de Madri, na categoria de Melhor Música para Filme e no Filmmaker Festival of World, em Milão na categoria de trilha sonora. Obteve reconhecimento por seu trabalho com as duas indicações do Grammy Latino, respectivamente em 2011 e 2012, e a posição conquistada de Artist-in-Residence, na Duke University in North Caroline.

Outra audaciosa e vitoriosa realização de Sérgio Roberto foi a fundação de A Casa Estúdio, em 1998, que já produziu cerca de 30 CDs dedicados à música brasileira contemporânea. Sua morte foi sentida por toda a comunidade musical brasileira e pela imprensa e várias homenagens foram realizadas em sua memória, na cidade onde nasceu e desenvolveu sua meteórica liderança e arte.

 

RICARDO TACUCHIAN

 

Ricardo Tacuchian é regente e compositor. Graduado em Piano, Composição e Regência pela UFRJ e Doutor em Composição pela University of Southern California. Sua obra (com mais de 250 títulos) já foi tocada no Brasil e em praticamente todos os países da Europa e das Américas, em cerca de duas mil apresentações ao vivo, além de programas radiofônicos, no Brasil, Estados Unidos e Europa. As principais orquestras brasileiras incluem sua obra em seus programas. A Bibliografia geral sobre ele abrange inúmeros itens entre Livros, Dicionários, Livros de Referência, Artigos em Revistas Especializadas, Dissertações de Mestrado e Teses de Doutorado, de várias partes do mundo. Seu nome é verbete do Grove Music Dictionary II (2001), do Baker’s Biographical Dictionary of Musicians, 9th edition (2000) e do Die Musik in Geschichte und Gegenwart, MGG (2007), entre outras obras internacionais. Nas comemorações pela passagem de seus 75 anos, a Biblioteca Nacional e a Academia Brasileira de Música lançaram, respectivamente, os livros Ricardo Tacuchian e sua Obra, Catálogos e notas biográficas (E. Higino e V. R. Peixoto, organizadoras. Rio de Janeiro: Biblioteca Nacional, 2014), e Ricardo Tacuchian e o Violão (Humberto Amorim, Rio de Janeiro: ABM, 2014). Sua Discografia alcança mais de 100 fonogramas em cerca de 50 diferentes CDs, inclusive gravações lançadas nos Estados Unidos, além das antigas gravações em LP (vinil). Dentre as posições que já exerceu destacam-se as de Professor Titular da UFRJ e da UNIRIO, Professor Visitante da State University of New York at Albany e da Universidade Nova de Lisboa, Consejero del Centro de Estudios Brasileños de la Universidad de Salamanca,  bolsista da Capes, CNPq, Other Minds, Appolon Stiftung, Fulbright Commission e da Rockefeller Foundation. Tacuchian regeu o maior conjunto instrumental de toda a história da música brasileira: uma banda com dois mil instrumentistas (Rio de Janeiro: Praça da Apoteose, 15/12/1985). Foi Regente Titular da Orquestra da UNIRIO (2002-4) e, em 2004, regeu, na cidade do Porto, um concerto coral sinfônico, todo ele dedicado à sua própria obra.

Tacuchian foi eleito, em 1981, membro da Academia Brasileira de Música, da qual foi Presidente em duas ocasiões. É também membro da Academia Brasileira de Arte.

 

 

 

SERVIÇO:

 

Dia 7 de julho, sábado – Lançamento do CD “O Piano de Sergio Roberto de Oliveira e Ricardo Tacuchian”

Local: Espaço Guiomar Novaes – Sala Cecília Meireles

Intérpretes: pianistas Miriam Grosman e Ingrid Barancoski

Horário: 16 HORAS

Ingressos: R$10.00 e R$ 5.00

Rua da Lapa, 47 – Lapa, Rio de Janeiro

Informações:  (21) 2332-9223

Ingressos à venda em breve na bilheteria da Sala Cecília Meireles ou através do site www.ingressorapido.com.br

 

 

Programa:

 

SERGIO ROBERTO DE OLIVEIRA

1.   BRASILEIRO                                                                                                                           

2.      PRELÚDIOS TIJUCANOS                               

         I. Alto da Boa Vista

         II. Amendoeiras   

         III. O Céu e o Balão Azul

3.   ATONAS

RICARDO TACUCHIAN  

4.   ERNESTO NAZARETH NO CINEMA ODEON

5.   A BAILARINA

            I.   A bailarina e o jardineiro

            II.  A bailarina e o motorista 

            III. A bailarina e o mendigo

            IV. A bailarina e o médico

            V.  A bailarina e o mágico   

            VI.  A bailarina e o poeta

            VII. A bailarina e o pescador

            VIII. A bailarina e o alpinista

            IX.   A bailarina e o pintor

            X.    Felipe e a bailarina

6.   LE TOMBEAU DE ALEIJADINHO

 

 

CD “O Piano de Sergio Roberto de Oliveira e Ricardo Tacuchian”

Gravadora: A Casa Discos

Distribuição nacional: Tratore

Preço médio: R$30,00