“Curral Grande” no Teatro Municipal Serrador

Episódio desconhecido de muitos brasileiros, a implantação de “currais do governo” para impedir que sertanejos cearenses imigrassem para a capital, durante a seca de 1932, foi o ponto de partida do Coletivo Ponto Zero para a criação de “Curral Grande”, elogiado espetáculo do grupo que volta ao cartaz no Rio, em curta temporada de 06 a 28 de outubro no Teatro Municipal Serrador. Com texto de Marcos Barbosa e direção de Eduardo Machado, a montagem, que circulou por diferentes regiões do país, propõe uma reflexão a partir deste triste episódio histórico: o quão recorrentes e atuais são outras práticas semelhantes de discriminação e higienização social nas grandes metrópoles brasileiras.

Construído a partir de cenas curtas, o espetáculo reúne múltiplas linguagens estabelecendo um “jogo” com estéticas teatrais diferentes. Os atores Carlos Darzé, Brisa Rodrigues, Brunna Scavuzzi e Lucas Lacerda se revezam em mais de 40 personagens, partindo da construção realista à caricatura, do teatro épico narrativo à contação de história. A encenação faz referência também ao século passado, fazendo uso de técnicas da radionovela e do cinema mudo. A pesquisa do Coletivo Ponto Zero pelo tema se aprofundou tanto ao longo desses anos que o grupo decidiu produzir também um documentário sobre a implantação dos currais do governo, que será finalizado no ano que vem.

“Fazer ‘Curral Grande’ representa, para mim, desenterrar esses mortos. Dar voz a essas pessoas que não aparecem nos livros de história. E não me refiro apenas aos flagelados da seca de 1932, mas de uma grande população que não nunca esteve na historiografia oficial”, declara o diretor Eduardo Machado. O ator Lucas Lacerda acrescenta que foi justamente o fato de a história ser desconhecida pela maioria da população brasileira que motivou o Coletivo Ponto Zero a levá-la aos palcos de forma que se pudesse propor uma reflexão maior. “Embora os currais do governo não tenham sido, necessariamente, como os campos de concentração da Alemanha, muitas pessoas foram mortas, em situação deprimente e vexatória. Para a gente, a grande questão da peça é a higienização social. Até os dias de hoje, você vê a segregação e o processo de limpeza social para maquiar a realidade”, reflete.

O texto, que mistura drama e humor, é resultado artístico da pesquisa de mestrado do professor e dramaturgo Marcos Barbosa, que sentiu vontade de escrever “Curral Grande” depois de assistir a uma reportagem do programa ‘Fantástico’, em 2000.

 “A chamada deve ter vindo na forma de uma retórica e sedutora pergunta do tipo: Você sabia que o Brasil também teve campos de concentração? Eu não sabia e, surpreso, aguardei pelo bloco seguinte. Uma segunda surpresa me veio quando aprendi através da matéria que os tais campos de concentração haviam ocorrido em meu estado natal, Ceará, menos de 60 anos antes”, lembra Barbosa.

Um fato inusitado é que sua própria avó vivenciou de muito perto a realidade da migração e dos campos, e resolveu relatar ao autor histórias que até então mantinha para si. Nesse encontro entre dramaturgia e história, ele iniciou uma ampla pesquisa até a conclusão da peça, em 2003. Uma de suas principais referências foi o livro “Isolamento e poder: Fortaleza e os campos de concentração na seca de 1932”.

Sobre o Coletivo Ponto Zero

O Coletivo foi fundado em Salvador, por um grupo de atores que se conheceu na Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia, em 2011. Foi ainda na UFBA que o Coletivo teve o seu primeiro contato com o dramaturgo Marcos Barbosa e com o diretor Eduardo Machado, convidado para emprestar o seu olhar sensível à peça. Em seu terceiro ano em circulação, ‘Curral Grande’ vem contribuindo para a consolidação deste jovem coletivo de artistas que tem por objetivo a pesquisa prática no trabalho do ator e que visa a contribuir com a arte e cultura do país. Hoje, o jovem grupo baiano (que conta também com atriz pernambucana) segue radicado no Rio de Janeiro, imersos na produção de um documentário que amplia a pesquisa do tema tratado em “Curral Grande”, entre outros trabalhos nos palcos e telas. Além desta temporada de Curral, o Coletivo dedica-se atualmente à montagem de seu segundo espetáculo, O Rinoceronte, de Ionesco, com direção de Jacyan Castilho, que estreia em janeiro de 2018 no Rio de Janeiro.

Ficha técnica:

 

Texto: Marcos Barbosa

Direção: Eduardo Machado

Direção musical: Pedro Maia e Ricardo Borges

Elenco: Brisa Rodrigues, Brunna Scavuzzi, Carlos Darzé e Lucas Lacerda

Cenário: Eric Fuly e Eduardo Machado

Figurino: Coletivo Ponto Zero

Modelista: Suely Gerhardt

Iluminação: Elton Pinheiro

Operação de luz: Elton Pinheiro

Operação de som: Geovana Araújo Marques

Fotografia: Ricardo Borges e Marília Cabral

Programação Visual: Uriel Bezerra

Coordenação de produção: Lucas Lacerda

Produção executiva: Geovana Araújo Marques

Realização: Coletivo Ponto Zero

Serviço:

Curral Grande

Temporada: De 06 a 28 de outubro.

Teatro Municipal Serrador: Rua Senador Dantas, 13, Centro.

Telefone: 2220-5033.

Dias e horários: 5ª a sábado, às 19h30. Estreia na sexta, dia 06/10.

Ingressos: R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia)

Lotação: 276 pessoas.

Duração: 1h10

Classificação: 12 anos

Funcionamento da Bilheteria: Terça a sábado, das 16h às 20h.