“A Cuíca do Laurindo” no Carlos Gomes

Criado por Noel Rosa, o personagem carioca Laurindo apareceu pela primeira vez na letra do samba Triste cuíca, de 1935. Nos anos seguintes, craques como Herivelto Martins, Wilson Baptista, Zé da Zilda, Haroldo Lobo e Heitor dos Prazeres abordaram o personagem em outros sambas, acrescentando novos capítulos à trajetória épica do cuiqueiro do morro da Mangueira. Com idealização e dramaturgia do escritor, ator e músico Rodrigo Alzuguir, a comédia musical A cuíca do Laurindo volta ao cartaz no dia 16 de junho, no Teatro Carlos Gomes, na Praça Tiradentes, depois de turnê pelo Estado do Rio, com novo cenário de José Dias e em versão amadurecida, mais enxuta. A temporada segue até 30 de julho, de quinta a sábado, às 19h, e aos domingos, às 17h.

A volta do espetáculo conta com outra novidade: todas as sextas-feiras (exceto a da estreia), o elenco receberá convidados especiais, para canjas ao final do espetáculo. O grupo, então, seguirá em cortejo de bloco carnavalesco até a rua. “A Praça Tiradentes é assunto recorrente na peça já que mulher de Laurindo, Zizica Tupynambá, é ex-atriz de teatro musicado, integrante da Companhia Negra de Revistas. Então, é muito emblemático fazermos o espetáculo no templo do teatro de revistas, o Carlos Gomes”, celebra Alzuguir.

Com direção de Sidnei Cruz e direção musical de Luis Barcelos, a peça retrata o Rio de Janeiro dos 1940 e tem como pano de fundo o cotidiano da fictícia Lira do Amor, pequena escola de samba do morro da Mangueira criada por Alzuguir. A produção

é mais uma realização da produtora carioca Marraio Cultural, que Rodrigo e Carol Miranda, sua mulher, criaram para realizar projetos focados na cultura e na história do Rio de Janeiro.

Durante a extensa pesquisa que resultaria na premiada biografia Wilson Baptista – O samba foi sua glória (Casa da Palavra, 2013), Alzuguir se deparou com um personagem recorrente em várias composições de Wilson Baptista: Laurindo. “Esse Laurindo é o mesmo que está em Triste cuíca e outros compositores, como Herivelto Martins, também fizeram sambas sobre ele. Compor músicas contando histórias de Laurindo virou uma brincadeira para um grupo de sambistas daquela geração dos anos 40”, destaca o autor.

Formado por atores e cantores, o elenco reúne Alexandre Rosa Moreno como Laurindo, além de Vilma Melo (Zizica), Claudia Ventura (Conceição), o próprio Rodrigo Alzuguir (Zé), Hugo Germano (Tião), Nina Wirtti (Guiomar) e o cantor e compositor Marcos Sacramento, destaque no papel de Dodô, braço-direito de Laurindo, citado em Desperta, Dodô, samba de Herivelto Martins. Os sete personagens foram extraídos de samba do período. Acompanhados de cinco músicos, o elenco canta e interpreta ao vivo cerca de 40 canções (lista completa no final do texto) de autores como Herivelto Martins, Wilson Baptista e Noel Rosa, entre outros – encadeadas e tratadas musicalmente de forma a ressaltar o caráter narrativo dessas músicas como condutoras da ação dramática.

Ao mesclar realidade e ficção para contar a história do cuiqueiro, o autor resgata uma fase importante da cultura carioca: os seminais anos 1930 e 40, quando surgiram as primeiras escolas de samba, derivadas dos antigos blocos, e os desfiles que aconteciam na Praça Onze. Inseridas na dramaturgia, as músicas traçam a trajetória de Laurindo, de líder da escola de samba Lira do Amor de Mangueira, passando pelo triângulo amoroso com Zizica e Conceição e a luta contra os nazistas, até a sua volta ao morro como herói de guerra.

Além dos sambas que narram as aventuras do Cabo Laurindo – como Triste cuíca (Noel Rosa), Laurindo (Herivelto Martins) e Comício em Mangueira (Wilson Baptista e Germano Augusto) – estão presentes composições do mesmo período que dialogam com a trajetória do personagem – a exemplo de Praça Onze (Vão acabar com a Praça Onze/Não vai haver mais escola de samba, não vai…) e Ave Maria no morro (Barracão de zinco/ Sem telhado, sem pintura/ Lá no morro/ Barracão é bangalô).

Na direção cênica, Sidnei Cruz procurou estabelecer “uma heterogeneidade de tratamentos narrativos”. “O espetáculo movimenta-se por desvios ao redor de certas tradições, como revista, chanchada, melodrama, roda, burleta, folguedo, opereta, cabaré e rádio. Assim é nosso teatro de samba”, explica o diretor.

O mérito de Alzuguir foi criar uma trama divertida e sofisticada ao redor desses sambas – num entrelaçamento tão preciso que essa coleção de músicas parece ter sido composta sob medida para o texto, escrito mais de setenta anos depois. “A riqueza de detalhes, a criatividade e a pesquisa preciosa de Rodrigo são trunfos do espetáculo”, destaca o cantor Marcos Sacramento.

> SOBRE RODRIGO ALZUGUIR

O escritor, pesquisador, músico e ator Rodrigo Alzuguir tem realizado diversos projetos culturais, sobretudo nas áreas teatral e de música popular brasileira. Seu primeiro livro, a biografia Wilson Baptista – O samba foi sua glória (Casa da Palavra, 2013) recebeu os prêmios Jabuti e Botequim Cultural em 2014 e foi tema de crônica do jornalista Artur Xexéo, intitulada A biografia do ano (Revista O Globo).

Sua pesquisa sobre Wilson Baptista também resultou em espetáculo musical, O samba carioca de Wilson Baptista; CD duplo homônimo, vencedor do 23º Prêmio da Música Brasileira e indicado ao 1º Prêmio Contigo! MPB Brasil de Música, ambos na categoria Projeto Especial; série de shows Meu mundo é hoje – 100 anos de Wilson Baptista, com Elza Soares, Marcos Sacramento, Nina Becker, Pedro Miranda e grande elenco, e álbum de partituras com mais de cem músicas do compositor, em parceria com a editora Irmãos Vitale. A parceria rendeu novo cancioneiro, Sambas para Mangueira, idealizado pelo Centro Cultural Cartola, com pesquisa e textos de Alzuguir e Alexandre Medeiros, lançado em 2015.

Alzuguir fez o roteiro e a direção cênica do espetáculo Sarau para Lupicínio, em tributo a Lupicínio Rodrigues, com participação de artistas como Yamandu Costa e Nicolas Krassik. Escreveu (e atuou em) Amigo Cyro, muito te admiro, musical sobre o cantor Cyro Monteiro, com direção de André Paes Leme (CCBB, 2014). Realizou pesquisa musical para SamBra – 100 anos de samba (com Diogo Nogueira), Clara Nunes – Brasil Mestiço e Oui, oui, a França é aqui, os três dirigidos por Gustavo Gasparani.

Escreve sobre música brasileira para o site do Instituto Moreira Salles e para publicações diversas. Trabalhou na organização do acervo de Hermínio Bello de Carvalho, sobre quem escreveu perfil-biográfico para o livro de crônicas Taberna da Glória e outras glórias, organizado por Ruy Castro.

Através da produtora Marraio Cultural, que mantém em sociedade com Carol Miranda, acaba de lançar o livro e CD Rio de Janeiro – Álbum Pitoresco-Musical – 1856 e 2014, patrocinado pela Funarte e pela Secretaria de Cultura do Rio de Janeiro, com textos seus e participação dos pianistas Francis Hime, Cristovão Bastos, Gilson Peranzzetta e Maria Teresa Madeira, entre outros.

> ROTEIRO MUSICAL

· Triste cuíca (Noel Rosa | Hervê Cordovil)

· Madrugada (Benedito Lacerda | Herivelto Martins)

· Foi na Praça Onze (Max Bulhões | Milton de Oliveira)

· Laurindo (Herivelto Martins)

· Como se faz uma cuíca (Haroldo Lobo | Wilson Baptista) – Guiomar (Haroldo Lobo | Wilson Baptista) – Benedito não é de briga (Wilson Baptista | Germano Augusto)

· Eu não sou daqui (Wilson Baptista | Ataulfo Alves)

· Ave Maria no morro (Herivelto Martins)

· Pisei num despacho (Geraldo Pereira | Elpídio Vianna)

· Tião (Wilson Baptista | Jorge de Castro)

· Praça Onze (Herivelto Martins | Grande Otelo)

· Lealdade (Wilson Baptista | Jorge de Castro)

· Mulato calado (Benjamin Baptista | Marina [Wilson] Baptista) – Louca alegria (Wilson Baptista)

· Lá vem Mangueira (Haroldo Lobo | Wilson Baptista | Jorge de Castro) – Despedida de Mangueira (Benedito Lacerda | Aldo Cabral)

· A Mussolini (paródia de A lavadeira) (Herivelto Martins) – Adolfito Mata-Moros (Alberto Ribeiro – João de Barro)

· Eu fui à Europa (Chiquinho Salles)

· Cabaré no morro (Herivelto Martins)

· A guerra acaba amanhã (Herivelto Martins | Grande Otelo) – Mangueira querida (Constantino Silva) – Cabo Laurindo (Haroldo Lobo | Wilson Baptista) – Comício em Mangueira (Wilson Baptista | Germano Augusto)

· Carta verde (Walfrido Silva | Wilson Baptista)

· Duas mulheres e um homem (Cyro de Souza | Jorge de Castro)

· Oba! Oba! (Paulo Pinheiro | Erasmo Silva)

· Conversa, Laurindo (José Gonçalves | Ari Monteiro)

· Às três da manhã (Herivelto Martins) – Quem vem descendo (Herivelto Martins | Príncipe Pretinho)

· Sem cuíca não há samba (Germano Augusto | João Antônio Peixoto)

· Desperta, Dodô (Germano Augusto | João Antônio Peixoto)

· Fala, Claudionor (Herivelto Martins | Grande Otelo)

· Zé da Conceição (João Roberto Kelly)

· Coisas nossas (Noel Rosa) – Laurindo Filho (Miguel Baúso | Carlos de Souza)

> FICHA TÉCNICA:

Idealização e texto: Rodrigo Alzuguir

Direção: Sidnei Cruz

Cenário: José Dias

Figurinos: Flavio Souza

Iluminação: Aurélio de Simoni

Direção musical: Luis Barcelos

Direção de movimento e Preparação Corporal: Ana Paula Bouzas

Preparação Vocal: Marcelo Rodolfo

Elenco: Alexandre Moreno, Vilma Melo, Claudia Ventura, Marcos Sacramento, Rodrigo Alzuguir, Hugo Germano e Nina Wirtti

Músicos: Yuri Villar, Luis Barcelos, Magno Julio, Marcus Thadeu e Rafael Mallmith

Assistente de direção: Patrícia Zampiroli

Coordenação de Projeto: Carol Miranda

Produção Executiva: Joana D’Aguiar – Sopro Escritório de Cultura

Realização: Marraio Cultural

> SERVIÇO Espetáculo: A cuíca do Laurindo Temporada: 16 de junho a 30 de julho de 2017 Dias e horários: Quinta a sábado, às 19h, e domingo, às 17h. Local: Teatro Carlos Gomes (Praça Tiradentes, s/nº – Centro)

Capacidade: 760 lugares Classificação indicativa: 12 anosGênero: Comédia musical Ingressos: R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia) Duração: 105 minutos Informações: (21) 2215-0556 Fanpage do espetáculo | https://www.facebook.com/acuicadolaurindo/ > TIJOLINHO A cuíca do Laurindo. Texto: Rodrigo Alzuguir. Direção: Sidnei Cruz. Com Alexandre Rosa Moreno, Vilma Melo, Claudia Ventura, Marcos Sacramento, Rodrigo Alzuguir, Hugo Germano e Nina Wirtti. Comédia musical sobre a trajetória do personagem criado por Noel Rosa, o sambista Laurindo, da Lira do Amor de Mangueira. Canções de Herivelto Martins, Wilson Baptista, Zé da Zilda e Grande Otelo, entre outros, são interpretadas ao vivo pelo elenco.