Grupo Tablado de Arruar ocupa Sesc Copacabana

O Sesc Copacabana será ocupado pelo grupo paulistano Tablado de Arruar a partir de 19 de janeiro com a Trilogia Abnegação – composta pelos espetáculos “Abnegação I”, indicado ao Prêmio APCA de Melhor Autor; “Abnegação II – O Começo do Fim”, contemplado pelo Prêmio Funarte Myriam Muniz e indicado ao Prêmio Aplauso Brasil de Melhor Texto; “Abnegação III – Restos”, finalista do Prêmio Aplauso Brasil nas categorias Melhor Autor e Melhor Elenco – e “Mateus, 10”, premiado com o Shell de Melhor Texto. Inéditos no Rio de Janeiro, os quatro espetáculos serão apresentados de quinta a domingo, no mezanino, com ingressos a R$ 25 (inteira).

Iniciada em 2014, a Trilogia Abnegação, escrita por Alexandre Dal Farra, que assina a direção com Clayton Mariano, trata, com pontos de vista diversos, das contradições e dificuldades da esquerda ao alcançar o poder, a partir de aspectos ligados à trajetória de um partido político. Tendo acompanhado uma fase de declínio dos setores progressistas da sociedade (e do fortalecimento da direita), não só no Brasil, mas no mundo, a trilogia do Tablado de Arruar procura entender e imaginar as várias questões envolvidas nesse contexto. Em “Abnegação I” (de 19 a 22 de janeiro) quatro personagens ligadas ao poder estão em uma reunião e debatem em torno de um acontecimento que nunca chegamos a saber qual é. Em “Abnegação II – O Começo do Fim” (de 26 a 29), ao contrário, desde o princípio torna-se explícito que a morte do ex-prefeito de Santo André Celso Daniel serve de ponto de partida para pensar sobre a relação entre a política institucional e a violência no Estado brasileiro. Por fim, em “Abnegação III – Restos” (de 02 a 05 de fevereiro), o grupo Tablado de Arruar lança um olhar sobre a sociedade brasileira como um todo, fruto de governos sucessivos de esquerda (de caráter social, mas de inclusão pela via do consumo) – sociedade esta que entra em colapso, e intui o seu próprio fim, ainda que sem saber disso, e sem ter as ferramentas para pensar sobre o que virá.

Vencedor do Shell de Melhor Autor, indicado ao Prêmio de Melhor Ator e eleito o Melhor Espetáculo em Espaço Alternativo pelo Prêmio da Cooperativa Paulista de Teatro, “Matheus, 10” encerra a ocupação da Cia. Tablado de Arruar no Sesc Copacabana com apresentações de 09 a 12 de fevereiro. Com dramaturgia de Alexandre Dal Farra, que divide a direção com João Otávio, a peça acompanha a obsessão de um pastor pelo texto bíblico que leva o nome da montagem e seu consequente desejo de formar uma nova doutrina religiosa. Com referências a “Bartleby, o escriturário”, de Herman Melville, e “Crime e Castigo”, de Dostoiévski, a peça levanta questões como a culpa, a alienação e a fé por meio da trajetória de um pastor que leva a sério demais o que ele mesmo prega. Na montagem, poucos elementos cênicos valorizam a interpretação dos atores e o texto como principais motores da encenação.

 

TABLADO DE ARRUAR

 

Abnegação I” – de 19 a 22 de janeiro

“Abnegação II – O Começo do Fim” – de 26 a 29 de janeiro

Abnegação III – Restos” – de 02 a 05 de fevereiro

Mateus, 10” – 09 a 12 de fevereiro

Apresentações: de quinta a sábado, às 21h, e domingo, às 20h.

Sesc Copacabana – Mezanino – Rua Domingos Ferreira 160, Copacabana.

Tel.: (21) 2547-0156. Lotação: 100 lugares. Classificação etária: 16 anos.

Ingressos: R$ 25,00 (inteira), R$ 12 (meia) e R$ 6 (associado Sesc).

Bilheteria: aberta de terça a sábado das 13h às 21h e domingo das 13h às 20h.

SINOPSES E FICHAS TÉCNICAS

 

ABNEGAÇÃO I

Texto: Alexandre Dal Farra. Direção: Clayton Mariano e Alexandre Dal Farra. Atores: Alexandra Tavares, Vitor Vieira, Antonio Salvador, André Capuano e Clayton Mariano. Cenário: Clayton Mariano, Alexandre Dal Farra e Eduardo Climachauska. Figurinos: Melina Schleder. Luz: Francisco Turbiani

Em uma reunião fechada, cinco integrantes de um partido político discutem um acontecimento do passado que vem à tona. São quatro da manhã, em uma fazenda de um dos membros do partido. Ao longo da madrugada, em meio a muitas garrafas de bebida, os envolvidos discutem e se desesperam, dançam e brigam ao som de hits sertanejos. A reunião segue sem que ninguém, nem o público, tenha certeza do que verdadeiramente se discute. Apenas uma coisa fica clara: o preço de uma atitude pode ser mais alto do que se imagina.

ABNEGAÇÃO II – O COMEÇO DO FIM

Texto: Alexandre Dal Farra. Direção: Clayton Mariano e Alexandre Dal Farra. Atores: Alexandra Tavares, Vitor Vieira, Vinicius Meloni, André Capuano e Gabriela Elias. Cenário e figurinos: Alexandre Dal Farra e Clayton Mariano. Luz: Francisco Turbiani. Provocação: Janaina Leite e Eduardo Climachauska. Operação de Áudio: Natasha Karasek

A partir da construção de dois planos ficcionais que se tensionam mutuamente, a peça expõe com violência a trajetória contraditória de um partido de esquerda que, em um momento de ampliação de seu alcance, ao mesmo tempo em que galga novas posições ampliando o seu horizonte político, cede mais e mais à dinâmica criminosa e cínica que organiza e estrutura o poder no capitalismo em geral, e de forma ainda mais clara na sua versão marginal e periférica.

ABNEGAÇÃO III – RESTOS

 

Texto: Alexandre Dal Farra. Direção: Clayton Mariano e Alexandre Dal Farra. Atores: Alexandra Tavares, Vitor Vieira, André Capuano, Antonio Salvador, Gabriela Elias e Janaina Leite. Cenário e figurinos: Alexandre Dal Farra e Clayton Mariano. Luz: Wagner Antonio. Provocação: Janaina Leite e Eduardo Climachauska.

A peça mostra cinco cenas paralelas, que se passam em casas de diferentes extratos sociais, no mesmo dia. Todas as cenas possuem conexões indiretas com forças que se ligam, direta ou indiretamente, ao Partido dos Trabalhadores (seja à sua fundação, seja à sua situação atual). Um padre que lutou contra a ditadura revisita a casa onde morou muito tempo atrás; um sindicalista visita a sua amiga rica, e lá encontra um jovem espirituoso e cínico; um advogado do partido conversa com um militante antigo (e sem nenhum cargo); um ex-guerrilheiro discute com a sua filha, bebe e se droga; um antigo operário decide se desfazer da sua vida atual, construída ao lado de uma ex-militante que o conheceu na época dos primeiros anos do partido, quando ela era estudante. A montagem se estrutura a partir da ativação da imaginação do público a partir dos fluxos de pensamento de cada uma das figuras.

MATEUS, 10

 

Texto: Alexandre Dal Farra. Direção Geral: Alexandre Dal Farra e João Otávio. Elenco: Alexandra Tavares, André Capuano, Amanda Lyra, Clayton Mariano, Gabriela Elias e Vitor Vieira. Direção de Atores: João Otávio. Direção de Arte e Cenografia: Clayton Mariano e Eduardo Climachauska. Figurinos: Melina Schleder. Iluminação: Davi de Brito

Otávio é um pastor em ascensão que entra em crise com sua atividade, quando se apega de forma quase obsessiva a uma passagem da bíblia em que Jesus renega sua família, mãe e irmãos, em função dos seus seguidores e discípulos. A partir de então, passa a desenvolver e a pregar uma nova doutrina. O desejo obsessivo de negar o conhecido em função do novo, a qualquer custo, o leva à beira da loucura. Para instaurar uma nova ordem ele precisa de um fato que mude os rumos da sua vida, e é a partir dessa atitude que a trama se desenrola.

SOBRE O TABLADO DE ARRUAR

 

Fundado em 2001, o grupo vem desenvolvendo um trabalho continuado, tendo sido reconhecido tanto pelos principais apoios nacionais ao teatro, pelo público e pela crítica. Em 2012 recebe o Prêmio de Melhor Autor por “Mateus, 10” para Alexandre Dal Farra e a indicação de melhor ator para Vitor Vieira. O espetáculo é contemplado ainda pelo Prêmio CPT de Melhor Espetáculo Não Convencional, além de ter a indicação de melhor ator para Vitor Vieira. Em 2014, “Abnegação I” é indicado também ao Prêmio APCA de Melhor Autor. Em 2015, “Abnegação II – O Começo do Fim” é indicado ao Prêmio Aplauso Brasil de Melhor Texto. Em 2016, “Abnegação 3 – Restos” é finalista nas categorias de melhor texto e melhor elenco pelo Prêmio Aplauso Brasil. Desde 2001, o grupo apresenta nas principais cidades do país e também no exterior, particularmente na Alemanha, onde desenvolveu um projeto longo de pesquisa, entre 2009 e 2011.

Tendo começado como um grupo de teatro de rua, o Tablado de Arruar tem em seu repertório quatro peças destinadas ao espaço externo – “A Farsa do Monumento” (2001), “Movimentos para Atravessar a Rua” (2003), “A Rua é um Rio” (2005) e “Helena Pede Perdão e é Esbofeteada” (2010). Em suas três peças para espaços fechados – “Quem Vem Lá” (2008), “Os novos Argonautas” (2009) e “Mateus, 10” (2012) –, o Tablado de Arruar vem desenvolvendo uma pesquisa aprofundada de linguagem, sobretudo em dois pontos: a dramaturgia e a interpretação.

A dramaturgia tem sido um ponto de contato entre o Tablado de Arruar e diversos outros grupos, nos quais Dal Farra tem trabalhado como dramaturgo, como o Grupo XIX de Teatro, o Teatro da Vertigem, a Cia da Memória, o grupo KUNYN, a Cia Livre, assim como provocador, como no caso do Coletivo Bruto, da Cia Les Commediens Tropicales, entre outros. Alexandre Dal Farra assumiu a dramaturgia do grupo em 2005, e desde então, vem desenvolvendo um trabalho continuado de pesquisa. Embora trabalhe o pensamento conjunto e coletivo, o Grupo opera a partir de uma divisão interna de funções, que possibilita o desenvolvimento e aprofundamento das especificidades de cada uma delas. Assim, a escolha de que a dramaturgia fosse desenvolvida por uma só pessoa reflete a confiança na capacidade de desenvolvimento de seus membros, a partir de uma temática e de uma diretriz artística que é sempre comum e coletiva. A pesquisa continuada sobre interpretação é outro aspecto que o Tablado de Arruar vem desenvolvendo ao longo de 11 anos. Os atores Vitor Vieira, Alexandra Tavares, Clayton Mariano e Ligia Oliveira, juntos desde 2005, desenvolvem conjuntamente uma investigação acerca das diferentes qualidades de interpretação que o grupo dispõe.