Casa de Bonecas – Eu fui!

Certos temas polêmicos nunca envelhecem. Mas podem se modificar e ganhar nova roupagem com o tempo. É o que está acontecendo com “Casa de Bonecas”, clássico teatral do norueguês Henrik Ibsen, em cartaz no Centro Cultural da Justiça Federal até 12 de junho. Miriam Freeland, Roberto Bomtempo, Anna Sant’Ana, Regina Sampaio e Leandro Baumgratz integram o elenco desta montagem de Daniel Veroneze.

Escrito há mais de 120 anos, o original é um drama familiar com o qual Ibsen intencionou mostrar o cotidiano de uma família burguesa da época. No entanto, o autor questionou as convenções sociais do casamento e do papel da mulher na sociedade, provocando um choque no contexto social e comportamental do fim do século XIX. Na época foi revolucionário e de grande repercussão em toda Europa, inclusive com censuras violentas em relação à Nora, a protagonista. A sociedade não aceitava que a personagem abandonasse a casa e os filhos.

Na versão atual, o feminismo continua em pauta, mas com outro foco. Nora tem 3 filhos lindos – como a própria os define – e não os abandona. É tida como uma espécie de bibelô e objeto de adoração por seu marido, que adora contemplá-la e chamar a atenção de todos a sua volta sobre sua graça. Fala que a ama, mas o sentimento parece superficial. Nora faz bem seu papel de esposa perfeita, mas tem um segredo que esconde do companheiro. Quando este o descobre, mostra quem verdadeiramente é, e o que verdadeiramente sente pela esposa. Inclusive de forma agressiva.

Durante boa parte da peça “Cenas de um Casamento” é citado. A relação entre Marianne e Johan é debatida com leveza pelo casal, e suas frases repetidas durante os diálogos. O clássico de Ingmar Bergman fala de um relacionamento desgastado pelos 10 anos de convivência, e os personagens de “Casa de Bonecas” não expressam a identificação com eles, mas provavelmente a história de Bergman fica na cabeça de ambos como uma espécie de reflexão quanto a sua própria relação.

O espetáculo tem ótimo texto e a parceria entre o casal Miriam Freeland e Roberto Bomtempo – já conferida pelo blog em “Tomo suas mãos nas minhas” – segue bem-sucedida. Tem densidade, drama, e Regina Sampaio dá um toque de comédia com sua irônica Berta. Clássico de Ibsen com toque contemporâneo, fazendo não apenas um antigo texto transcender, como ganhar ares para novas reflexões.

P.S.: Agradeço à Minas de Ideias pelo convite. Nossa campeã do ranking de melhores eventos de 2016, veja só!