“Marco Zero” na Caixa Cultural

A partir de 27 de novembro (estreia para convidados no dia 26/11), a Caixa Cultural Rio de Janeiro recebe a estreia nacional do espetáculo “Marco Zero”, de Neil LaBute, com direção de Ivan Sugahara e Idealização de Tárik Puggina, inédito no Brasil e pela primeira vez traduzido para a língua portuguesa. O título original, “The Mercy Seat”, cuja tradução mais literal seria ‘Confessionário’ ou ‘Banco de Misericórdia’, em português diz pouco do que trata a peça. A escolha do título Marco Zero remete a algumas simbologias: é como ficou conhecido o local onde antes se localizavam as torres, simbolizando a superação americana; é o momento da vida pessoal no qual cada personagem encontra-se, afinal suas vidas estão em vias de tomar um novo rumo; e é o marco zero da relação do casal, que é passada a limpo em cena.

O espetáculo – com montagens em Nova Iorque (estrelado por Liev Shcreiber e Sigourney Weaver), Londres e Lima (Peru) – se passa na madrugada do dia 12 de setembro de 2001, menos de 24h após a queda das torres do World Trade Center, em Nova Iorque, em um apartamento com vista para o famoso arranha céu, onde se encontram Ben Harcourt e Abby Prescott, vividos por Tárik Pugina e Letícia Isnard. Esse é o pano de fundo da peça e o combustível desencadeador da trama. Segundo o próprio autor – que pensou no texto logo após a tragédia do 11 de setembro quando teve seu vôo de Chicago para Nova York cancelado e teve que tomar fazer uma viagem de 21h de trem –, ele queria “examinar o ‘marco zero’ de nossas vidas, aquele buraco em nós que tentamos tapar com roupas da GAP, com colônia Ralph Lauren, com bolsas da Kate Spade. Por que estamos tão dispostos a correr cem quilômetros para fugir de, simplesmente, dizer a alguém, ‘eu não sei se te amo mais’? Porque Nikes são baratos, correr é fácil, e honestidade é a moeda mais dura e fria do planeta.”.

De acordo com Tárik Puggina, que descobriu esse texto ao acaso e cuja ironia crítica de LaBute sobre os próprios americanos e sua cultura individualista e consumista, que tão bem poderia retratar a realidade brasileira, despertou seu interesse em fazer essa montagem aqui, Neil retrata personagens amorais que destorcem a realidade para atingir seus próprios

objetivos. “Como ator, eu me questiono até que ponto somos capazes de ir em busca de nossos objetivos de vida, de nossos sonhos? Até onde vale a pena trilhar? Quais os limites do personagem? E os meus? O que será que me faria mais feliz: um imenso sucesso profissional ou uma casa simples a beira mar em algum lugar escondido desse grande caos ‘des-civilizatório’ que vivemos nas grandes cidades?”, afirma Puggina.

SOBRE A MONTAGEM

Desde 2010, com “Sade em Sodoma”, de Flávio Braga, que é uma adaptação atual da obra do Marquês de Sade, “Os 120 dias de Sodoma”, Tárik Puggina vem pesquisando – e apresentando – textos e autores contemporâneos que tragam questionamentos sobre alguns “ismos”: o individualismo, o egoísmo, o consumismo desenfreado e seus desencadeamentos em neuroses individuais e mesmo sociais. Se em “Sade em Sodoma” o texto discutia todo tipo de excessos e exageros, como as compulsões sexuais; em “Preciso Andar” (2014), de Nick Payne, havia uma discussão da liquidez do amor (termo cunhado por Zygmunt Bauman sobre a fragilidade dos afetos e laços humanos) em tempos de internet e sua velocidade de informação acelerada; em “Marco Zero”, traz-se a discussão sobre um egoísmo latente mesmo em uma situação que deveria ser de altruísmo mundial. No meio de uma ameaça de guerra eminente, os personagens entram em uma discussão acalorada sobre seu relacionamento amoroso. Em comum esses projetos tem, além dos questionamentos e a contemporaneidade, a direção de Ivan Sugahara e a idealização de Tárik Puggina.

Em Marco Zero, Neil LaBute questiona o ‘momento oportuno’, aquele onde, definitivamente, se pode decidir sobre um novo rumo para a vida. Diálogos entre os sexos, sobre quem tem o poder, quem controla a relação, o que significa a relação sexual e o amor. Os personagens questionam: se, neste momento, você pudesse dar um novo rumo à sua vida e qual seria ele? A peça leva os personagens ao limite desse questionamento. Sem meios-termos, os personagens se veem obrigados a revelar sua verdadeira face, provavelmente eclipsados pelo desastre que os rodeia. Acostumado a escrever peças que abordem assuntos amorais e inquietantes, cujo foco está no desespero que muitas vezes está por trás de atos violentos e sádicos, que todos os dias enchem a primeira página dos jornais, o dramaturgo é motivado em sua escrita por um forte senso de moralidade. “O grande bem pode vir de mostrar uma grande maldade”, afirma o Labute.

No elenco apenas dois atores, Letícia Isnard e Tárik Puggina, dirigidos pelo também parceiro de longa data, Ivan Sugahara. Letícia e Ivan fazem parte da premiada cia. Os Dezequilibrados, que é produzida por Tárik desde 2011 quando, juntos, realizaram “A Estupidez”, de Rafael Spregelburd, espetáculo que rendeu à Letícia a indicação ao Prêmio Shell de Melhor Atriz. Afastada da televisão e do teatro por conta de sua gravidez, a atriz retorna ao teatro carioca com o drama de LaBute. E também se prepara para voltar à TV. Ela estará no elenco da próxima novela das onze da TV Globo, “Liberdade, Liberdade”, de Márcia Prates e direção de Vinícius Coimbra.

Para atriz Letícia Isnard, Marco Zero é um ponto de mudança, de recomeço, o momento-chave em que a nossas escolhas definem todo o nosso futuro, onde o acaso gera oportunidades inesperadas, nos colocando diante de decisões absolutamente determinantes. “Sempre me interessei por esse segundo de suspensão antes da decisão que compromete toda a nossa vida. Quantas vidas temos em uma? Quantos futuros desperdiçamos a cada acaso que nos atravessa, a cada escolha que fazemos?”, afirma a atriz.

SINOPSE

A peça, escrita em 2002, foi uma das primeiras respostas artísticas ao ataque às Torres Gêmeas do World Trade Center (WTC), em 11 de setembro de 2001, dia em que a espetáculo se desenrola, tendo o trágico episódio como pano de fundo da trama. Ben Harcourt (Tárik Puggina) trabalha próximo ao WTC, mas falta ao trabalho no dia da tragédia porque está na casa de sua amante, Abby Prescott (Letícia Isnard), que é também sua chefe. Na televisão imagens do dia caótico não param de passar. O telefone de Ben não para de tocar, e ele não consegue se decidir se atende ou não a chamada de sua esposa. Ele apodera-se dos efeitos do ataque terrorista como uma oportunidade para começar uma nova vida com sua amante e para fazer sua esposa e filhos acreditarem que ele morreu como um herói nos ataques às Torres Gêmeas.

Em um momento de tragédia internacional, o mundo muda em uma simples manhã. Um homem e uma mulher exploram as opções agora disponíveis para eles em uma existência diferente da que eles tinham vivido no dia anterior. É possível ser oportunista em um momento de altruísmo universal? O mundo pede a misericórdia dos terroristas e ambos buscam a misericórdia e a compaixão um do outro.

FICHA TÉCNICA

Texto: Neil Labute

Tradução: Gustavo Klein

Direção: Ivan Sugahara

Co-direção: Simone Beghinni

Elenco: Leticia Isnard e Tárik Puggina

Direção de produção: Aline Mohamad

Produção executiva: Amora Xavier

Cenário: Aurora dos Campos

Figurino: Flávio Souza

Direção musical: Rodrigo Lima

Iluminação: Paulo Cesar Medeiros

Fotos: Dalton Valério

Marketing Digital: Laura Limp

Projeto gráfico: Luciano Cian

Administração financeira: Amanda Cezarina

Realização: Nevaxca Produções

Idealização: Tárik Puggina

SERVIÇO

Estreia para convidados: 26 de novembro, às 19h

Temporada: 27 de novembro a 20 de dezembro

Local: Caixa Cultural Rio de Janeiro – Teatro de Arena (Av. Almirante Barroso, 25 – Centro)

Telefone: (21) 3980-3815

Horário: terça a domingo, às 19h. Em dezembro, sessão extra nos dias 12 e 19 (sábado), às 17h.

Ingressos: R$20,00

Gênero: Drama

Duração: 75 minutos

Capacidade: 170 lugares

Classificação: 16 anos

Bilheteria: a partir das 10h

CURRÍCULOS

NEIL LABUTE

Neil LaBute (52 anos) é um importante e conceituado dramaturgo, roteirista e cineasta norte-americano. Já recebeu o prêmio Independent Spirit Awards, na categoria de Melhor Filme, por “Na companhia de homens” (1997). Já teve diversas peças montadas no Brasil, entre elas: “Restos”, que foi estrelada por Antônio Fagundes, com direção de Marcio Aurelio, em 2009; “Baque”, dirigida por Monique Gardenberg, com Deborah Evelyn, Emílio de Mello e Carlos Evelyn, em 2005; “Gorda”, dirigida no Brasil pelo argentino Daniel Veronese, com Fabiana Karla, “Aquelas Mulheres”, dirigida por Flavio Tambellini, com Pedro Bricio, Paula Braun, Larissa Maciel, Lorena da Silva, e “A Forma das Coisas”, que foi dirigida por Guilherme Leme, ambas em 2010; e “Razões para ser bonita”, com a Ingrid Guimarães e o Marcelo Faria, dirigida por João Fonseca, em 2012 – 2015.

IVAN SUGAHARA

Diretor da cia. Os Dezequilibrados, encenou mais de 40 peças, em 18 anos de carreira. Recebeu os prêmios Cesgranrio de Melhor Espetáculo por Fala comigo como a chuva e me deixa ouvir (2014), de Tennessee Williams; e Qualidade Brasil de Melhor Diretor e Espetáculo por Notícias Cariocas (2004), montagem da Cia. dos Atores que co-dirigiu com Enrique Diaz. Foi três vezes indicado ao Prêmio Shell de Melhor Direção. Dirigiu a cerimônia do Grande Prêmio do Cinema Brasileiro em seis edições. Em 2015, fez a direção e a dramaturgia de Beija-me como nos livros. Em 2014, também escreveu e dirigiu, em parceria com Gustavo Damasceno, Cabaré Foguete; e encenou Amores, de Domingos Oliveira; e Preciso Andar, de Nick Payne.

Nos últimos anos dirigiu Sarau das Putas, que escreveu com Renata Mizrahi e Vitor Barbarisi; Pacto, musical de Stephen Dolginoff; Tarja Preta, de Adriana Falcão; Michael e Eu, de Marcelo Pedreira; A Serpente, de Nelson Rodrigues; Antes que você me toque, que escreveu em parceria com Claudia Mele; A Estupidez, de Rafael Spregelburd; Mulheres Sonharam Cavalos, de Daniel Veronese; Terra do Nunca e Tudo que existe entre nós, de autoria própria, ambas com estréia em Portugal na Mostra Internacional de Teatro de Oeiras; Tempo de Solidão, de Márcia Zanelatto; Blitz, de Bosco Brasil; Sade em Sodoma, de Flávio Braga; Play, de Rodrigo Nogueira; Pelo amor de Deus, não fala assim comigo!, de Maria Carmem Barbosa; Sem Ana, de Caio Fernando Abreu; e Memória Afetiva de um Amor Esquecido, de Rosyane Trotta. Atualmente, é responsável pela direção artística e curadoria da SEDE DAS CIAS, localizada na Escadaria Selarón, na Lapa (Rio de Janeiro).

LETÍCIA ISNARD

Em televisão ficou conhecida com o personagem Ivana da novela Avenida Brasil. De 2012. Em seguida já entrou na novela Sangue Bom. Fez parte do elenco fixo do programa Minha Nada Mole Vida (2006 – 2007), da novela Beleza Pura (2008) e da minissérie Afinal, o que querem as mulheres? (2010).

Em 2011/2012 traduziu as peças argentinas A Estupidez, de Rafael Spregelburd, com a cia Os Dezequilibrados – foi indicada ao Prêmio Shell de Melhor Atriz -, e Mulheres Sonharam Cavalos, de Daniel Veronese. Ambas foram dirigidas por Sugahara.

Foi bailarina clássica e contemporânea profissional. Bacharel em Ciências Sociais na PUC-RJ, é Mestre em Sociologia pelo IFCS/UFRJ.

Integrante da cia. Os Dezequilibrados, dirigida por Ivan Sugahara, esteve nos seguintes trabalhos: Últimos remorsos Antes do Esquecimento (2007), de Jean-Luc Lagarce; Dilacerado (2004), de Daniela Pereira de Carvalho; Bonitinha, mas ordinária (2001), de Nelson Rodrigues. Em teatro atuou em dezenas de espetáculos.

TÁRIK PUGGINA

Nascido em Porto Alegre, graduou-se em Artes Cênicas pela UNIRIO em 2005. Em 2010 fez um workshop com Gerald Thomas em Londres, juntamente com a atriz Guta Stresser, para preparação do espetáculo “Sade em Sodoma. De 2010 a 2013 esteve em cartaz ou circulando com o espetáculo Sade em Sodoma, de Flávio Braga e direção de Ivan Sugahara. O espetáculo foi idealizado e realizado pelo ator.

Em 2014 idealizou e atuou em “Preciso Andar”, de Nick Payne e direção de Ivan Sugahara. Participou da montagem carioca da ópera “O Empresário”, de Wolfgang Amadeus Mozart, pela Companhia Experimental de Ópera, com direção e regência de Wendell Kettle (Teatro da Justiça Federal – RJ). Atuou no espetáculo “O Velho da Horta”, de Gil Vicente, pela Companhia Pequod de Teatro de Animação, dirigido por Miguel Velinho (Teatro CCSP – Centro Cultural São Paulo). Esteve em cartaz com Charo y Paco: Aventura no Tempo das Caravelas, de Carlos Henrique Casanova, texto premiado pela Funarte.