Eu vou tirar você deste lugar – As canções de Odair José

Depois de cumprir itinerância em Brasília (CCBB, de 7 de maio a 1 de junho de 2014), Belo Horizonte (Sesc Palladium, 19 e 20 de julho de 2014) e São Paulo (CCBB, de 19 de novembro de 2014 a 19 de janeiro de 2015), com sucesso de público e repercussão na crítica especializada, o musical Eu vou tirar você deste lugar – As canções de Odair José estreia no Teatro I do CCBB Rio para temporada, de quarta a domingo, às 19h, de 4 de março (pré-estreia para convidados) a 5 de abril. O musical marca à volta aos palcos cariocas da vedete e cantora Watusi, estrela dos anos 1980 do mítico Moulin Rouge e uma das atrações do musical Golden Rio,  onde brilhou ao lado de Grande Othelo. Essa é a primeira participação de Watusi num projeto de teatro musical (ela substituiu Maria Alcina, que se foi cuidar do lançamento do primeiro DVD De normal bastam os outros).

— É a primeira vez que interpreto uma personagem, do começo ao fim de um espetáculo teatral. Estou impressionada com a qualidade das canções de Odair José e a forma como foram entrelaçadas a um texto inédito, destaca a cantora.

Com direção e roteiro de Sérgio Maggio e produção nacional de Fernanda Signorini (Eu não dava praquilo), a montagem mexe com o imaginário dos espectadores ao pôr em cena 20 temas de um dos maiores ídolos da canção romântica e popular no Brasil (10 milhões de discos vendidos na década de 1970). É comum, durante e após a apresentação, o espectador cantarolar temas que venceram o tempo, como Cadê você e A noite mais linda do mundo. A partir de um roteiro inédito e ficcional, 20 canções (de um repertório que beira 400 músicas) costuram uma narrativa não biográfica.

— Estou muito feliz em saber que a minha obra serviu a um teatro de qualidade, exalta Odair José, que assina a supervisão musical do espetáculo.

A partir de uma pesquisa sobre arquétipos que habitam as canções de Odair José (cujas letras são crônicas cotidianas), o musical se move numa trama que se inicia, em 1923, quando a cidade de São Paulo foi abalada por um escândalo moralista (o assassinato da cortesã Nenê Romano, morta por um jovem e renomado advogado, filho de família tradicional), e segue para o ano de 1973, com o Brasil amordaçado no auge da ditadura militar.

— É nesse contexto que surge a história de um jovem que enfrenta a força patriarcal para realizar o sonho de ser um cantor de rock´n´roll. Tensões políticas e jogos de costumes conduzem a narrativa de uma comédia musical formalmente inspirada em gêneros populares, conta Sérgio Maggio, autor do livro Conversas de Cafetinas (Prêmio Jabuti 2010).

O desafio era compor uma montagem que fosse esteticamente popular como as letras de Odair José, mas que guardasse um conteúdo de protesto e indignação social, que fez do cantor e compositor um dos mais censurados pela ditadura militar. Para isso, Sérgio Maggio mergulhou numa pesquisa sobre os gêneros populares, que, no Brasil, foram condenados pelo preconceito intelectual por alcançar a larga audiência, não iniciada em arte. Os pejorativamente acusados de popularesco.

— Hoje, a obra de Odair José passou por revisão crítica. Mas, nos anos 1970, ou foi ignorada ou escanteada por alcançar os quartos de fundos da classe média, onde habitavam as empregadas domésticas, e as casas de prostituições (daí ser chamado de brega). Odair José era cantor de rádio AM e o nosso desafio recaiu em criar um musical com o alcance do radinho de pilha. Por isso, fui beber nas chanchadas (cinema), nas novelas de Janete Clair (tevê), nas comédias ligeiras das companhias Eva Todor e Dulcina-Odilon (o empresário batiza um dos personagens), no escracho de Dercy Gonçalves, nas fotonovelas e radionovelas. Tudo que foi considerado menor, mas que hoje, com os olhos da contemporaneidade, é revisto criticamente, destaca Maggio.

Com processo de criação compartilhada (com os atores propondo a criação das cenas no sistema de workshop), o musical leva o âmbito das canções de Odair José (melodicamente primorosas) para o rock, raiz e forte influência do compositor nos anos 1970 (Paul Anka, Beatles e a country music), quando chegou a ser comparado à sonoridade de Bob Dylan. A mistura do rock e da comédia popular produziu um dos maiores sucessos do teatro musical brasileiro da atualidade com sessões lotadas, ingressos extras e filas para ocupar as desistências.

— O tempo tem sido o meu melhor crítico, aponta Odair José, que, acaba de lançar o disco de inéditas, Dia 16, com pegada rocker.

Fora do eixo – Um dos méritos culturais do musical está no deslocamento do eixo de produção do teatro musical brasileiro do Rio-SP para Brasília, cidade que tem exportado talentos como Sara Sarres e Saulo Vasconcelos, mas que ficou de fora da atual safra de produção (nos anos 1980, Oswaldo Montenegro fez sucessivos musicais com as desconhecidas Cássia Eller e Zélia Cristina, hoje Duncan). Assim, por meio de audição, talentos que sonhavam em fazer carreira no teatro musical brasileiro tiveram a primeira chance de integrar uma montagem profissional sem sair do Centro-Oeste.

— Este é um aspecto que nos orgulha. Alguns desses intérpretes, como Gabriela Correa, estava tentando entrar no mercado em sucessivas e disputadas audições no Rio/SP. Foi escolhida entre 50 candidatas, comemora Sérgio Maggio.

Assim, jovens talentos, como Camila Guerra, Luiz Felipe Ferreira, Gabriela Corrêa, Rodrigo Mármore, Tainá Baldez e Renato Milan (que entrou na temporada paulista) dividem a cena com Watusi e Jones de Abreu (28 anos de palco), um dos atores mais respeitados da cena brasiliense (protagonista de Eros Impuro, monólogo de Sérgio Maggio, que circula o país desde 2011).

Eu vou tirar você deste lugar – As canções de Odair José tem a assinatura de direção de produção de Fernanda Signorini, produziu o premiado Eu não dava praquilo, com Cássio Scapin..A direção musical está sob a batuta do músico Alex Souza, também ator, compositor e integrante do grupo Caraivana. A diretora de movimento é Márcia Duarte, coreógrafa do histórico grupo Endança (1980), de Brasília, que revelou nomes como Luís Mendonça e Cristina Moura. O cenário é de Maria Carmem Souza (que integrou o Teatro Ginástico nos anos 1960).

Sergio Maggio comemora: “O Rio é muito especial para este projeto, fomos visitar o teatro de revista, a chanchada, as comédias primaveris de Eva Todor, da Companhia Dulcina-Odilon, de Alda Garrido, de Procópio Ferreira e Jayme Costa, o deboche de Dercy Gonçalves. Tudo que foi considerado menor por uma parte da intelectualidade por conta do alcance popular. Isso era importante para a pesquisa pois aproximava-se do que Odair José passou nos anos 1970 por ser um estrondoso sucesso, numa época em que ser sucesso demais era um pecado imperdoável. Imagina tocar nos quartos das empregadas e nos bórdeis? Toda essa pesquisa de linguagem geograficamente está centrada no Rio”

FICHA TÉCNICA
EU VOU TIRAR VOCÊ DESTE LUGAR – AS CANÇÕES DE ODAIR JOSÉ  – ESPETÁCULO MUSICAL
Dramaturgia e direção: Sérgio Maggio.
Supervisor musical: Odair José
Elenco: Watusi, Jones de Abreu, Camila Guerra, Gabriela Correa,  Luiz Felipe Ferreira, e Rodrigo Mármore,Taína Baldez e Renato Milan

SERVIÇO:
“Eu Vou Tirar Você Deste Lugar”
Estreia para convidados: 04 de março, 20h
Temporada: de 05 março a 05 de abril
Local: Teatro I do Centro Cultural Banco do Brasil (Rua Primeiro de Março, 66 – Centro)
Horários: quarta a domingo, 19h
Ingressos: R$ 10,00 (inteira)
Capacidade: 172 lugares
Duração: 1h30m
Classificação: 14 anos
Gênero: musical
Bilheteria: de quarta a segunda, a partir das 9h
Informações: 3808-2020