A obra do diretor Pasolini, no CCBB

A mostra de cinema Pasolini, ou quando o Cinema se faz Poesia e Política de seu Tempo levará para o Cinema I do Centro Cultural Banco do Brasil do Rio (16/10 a 10/11) uma retrospectiva completa da obra do diretor italiano em película 35mm. Serão exibidos vários filmes inéditos no Brasil, incluindo documentários filmados na Índia e na África, com uma particular visão sobre o Terceiro Mundo, pouco conhecida em terras brasileiras, mas com grande aproximação e diálogo com as ideias de Glauber Rocha e outros cineastas e intelectuais contemporâneos dos anos 1960 e 1970.  Além das obras cinematográficas, a mostra contará com uma exposição de fotos nunca antes exibidas e debates. Mais duas cidades estão no roteiro da mostra do CCBB: São Paulo (22/10 a 17/11) e de Brasília (05 a 24 de novembro).

Sob curadoria do pesquisador e professor de cinema da PUC-RJ Flávio Kactuz, especialista em Pasolini, a mostra terá desdobramentos fora da sala de cinema com uma exposição fotográfica inédita e original contendo imagens do continente africano e asiático produzidas por Pasolini, e ainda vídeo com depoimento exclusivo do ator Ninetto Davoli sobre este material.  As fotos são do acervo pessoal que estão sob a guarda de sua herdeira, Graziella Chiarcossi, apresentando um olhar diferenciado  sobre o Terceiro Mundo, em suas viagens pela África e a Ásia. “Em 1969 Pasolini faz um texto-poema chamado ‘Notas para um poema sobre o Terceiro Mundo’ em que descreve a vontade de filmar nestas regiões. Era um projeto para filmar no Brasil, na Índia, na Africa e nos EUA, nos guetos americanos. Foi ai que vi que tinha um recorte que nos interessava”, conta Kactuz.

A retrospectiva exibirá toda a obra cinematográfica em 35mm, o que torna o evento um prato cheio para os amantes do trabalho do cineasta, que ainda contará com a exibição de importantes documentários (em DVD) feitos sobre ele, tais como Pasolini Prossimo Nostro (2007), de Giuseppe Bertolucci; A Futura Memoria (1986), de Ivo Barnabò;  Via Pasolini (2005), de Igor Skofic, e La Voce di Pasolini (2005), de Matteo Cerami. Para deleite dos fãs, Ninetto Davoli, o principal ator dos filmes de Pasolini, estará presente no dia 20 de outubro para um encontro especial com o público, onde irá compartilhar suas recordações do mestre do cinema italiano. Uma exposição de poemas da época em que Pasolini esteve no Brasil também está na programação. São textos em que o poeta reforçam o desejo de filmar em países de Terceiro Mundo. “Em um poema ele fala de Recife e um outro do Rio de Janeiro, da Rocinha. Ele fala exatamente das condições de pobreza , do universo que ele estava vendo”, diz o curador.

Pier Paolo Pasolini assistiu ao nascimento do neorrealismo na tentativa de se criar um novo cinema no pós-guerra, possibilitando o florescimento de novas e instigantes cinematografias, que desabrocharam na Itália, no Brasil, na França, Polônia, República Tcheca, Alemanha e até mesmo nos Estados Unidos, inconformadas com os padrões ditados por Hollywood. Segundo Flávio Kactuz, aquela  época trouxe à cena importantes reivindicações e contestações na luta pela igualdade de direitos e todas as rebeliões comportamentais que explodiram em vários cantos do Ocidente. “Como se não bastasse, o poeta italiano também assistiu ao desenfreado processo desigual de industrialização e a febre incessante de consumo que dominou a Itália nesse mesmo período”, completa.

Pasolini como poeta e crítico contumaz de seu tempo, comunista e homossexual, sofreu inúmeros processos ao longo de sua vida e contínuas perseguições por frentes conservadoras, desde a sua expulsão do Partido Comunista Italiano em 26 de outubro de 1949 por razões morais, ou no célebre caso do filme A Ricota, em 1963, quando foi condenado por blasfêmia. Entretanto, foi várias vezes premiado, inclusive pela Igreja Católica, que acaba de conclamar seu filme O Evangelho de São Mateus – que inicia a mostra nas três cidades – elegendo a obra como a que melhor traduz o espírito do Cristianismo.  Pasolini também dividiu opiniões em 1968, quando polemizou com os estudantes por conta de seu poema-manifesto O PCI aos Jovens,  ou quando declarou ser contra o aborto, até provocar a ira remanescente fascista que havia ainda na Itália na época de seu último filme Saló, ou 120 dias de Sodoma, em 1975, culminando em uma morte até hoje pouco explicada no dia 2 de novembro do mesmo ano, quando seu corpo foi encontrado em Óstia, balneário próximo a Roma.

Filmes nacionais que se assemelham à estética de Pasolini também estarão na mostra: “A Idade da Terra”, de Glauber Rocha, “Tatuagem”, de Hilton Lacerda, “Orgia, ou o homem que deu cria” e “Contestação”, de João Silvério Trevisan, e “Dramática”, de Ava Rocha. Estão programados mesas e debates com significativos pesquisadores, críticos, professores e realizadores de cinema como  Hilton Lacerda (cineasta e roteirista), João Silvério Trevisan (cineasta e escritor), Roberto Chiesi (diretor da Fondazione Archivio Pasolini, sediada na cidade italiana de Bologna), Mariarosaria Fabris (USP), Miguel Serpa Pereira (PUC-Rio) e Flávio Kactuz (Curador da Mostra e Professor da PUC-Rio).

Filmes de Pasolini que serão exibidos na mostra:

Salò o le 120 giornate di Sodoma (1975)  Saló ou 120 dias de Sodoma 116’

Il Fiore delle mille e una notte (1974)  As mil e uma noites 130’

Le Mura di Sana (1974) 13’

I Racconti di Canterbury (1972) Os contos de Canterbury 110’

Il Decameron (1971)  Decamerão 110’

Appunti per un’Orestiade africana (1970)  73’

Medea (1969)  Medéia 111’

Porcile (1969)  Pocilga 98’

La sequenza del fiore di carta (Amore e rabbia) (1968) 11`

Teorema (1968)  Teorema 98’

Appunti per un film sull’india (1968)  34’

Edipo re (1967)  Édipo Rei 104’

Che cosa sono le nuvole? (Capriccio all’italiana) (1967) 22’

La Terra vista dalla Luna (1966) episódio do filme As Bruxas 31’

Uccellacci e uccellini (1966)  Gaviões e passarinhos 86’

Il Vangelo secondo Matteo (1964)  O Evangelho segundo São Mateus 137’

Sopralluoghi in Palestina per il vangelo secondo Matteo (1965) 52’

Comizi d’amore (1964)  92’

La Rabbia (1963) (part I) 53’

La Ricotta, Ro.Go.Pa.G. (1963) A Ricota 35’

Mamma Roma (1962) Mamma Roma 115’

Accattone (1961) Desajuste social 116’

Filmes Sobre Pasolini:

A Futura Memoria (1986, 115’) de Ivo Barnabò Micheli

Via Pasolini (2005, 70’) de Igor Skofic

Pasolini Prossimo Nostro (2006, 58’) de Giuseppe Bertolucci.

Pasolini un delitto Italiano (1995, 100’) de Marco Túlio Giordana

La Voce di  Pasolini (2005, 60’) de Matteo Cerami.

Filmes Brasileiros:

A Idade da Terra (1980, 160’), de Glauber Rocha

Tatuagem (2013, 110’) de Hilton Lacerda

Orgia, ou o homem que deu cria  (1970, 90’) de João Silvério Trevisan

Contestação (1969, 12’) de João Silvério Trevisan

Dramática (2005, 20’) de Ava Rocha

Debatedores:

Ninetto Davoli (ator italiano)

Miguel Serpa Pereira ( Professor e Crítico de Cinema – PUC-RIO)

Roberto Chiesi (Fondazione Archivio  Pasolini)

João Silvério Trevisan (escritor e realizador)

Hilton Lacerda (Realizador e Roterista)

Flávio Kactuz (Curador da Mostra e Professor da PUC-Rio)

Serviço:
Mostra de cinema e exposição “Pasolini, ou quando o Cinema se faz Poesia e Política de seu Tempo”
Local: Centro Cultural Banco do Brasil Rio de Janeiro > Cinema I
Exposição fotográfica e vídeo: 4° andar – Sala 26
Endereço: Rua Primeiro de Março, 66 – Centro  – Rio de Janeiro (RJ)
(21) 3808-2007 | ccbbrio@bb.com.br
Funcionamento: de quarta a segunda, das 9h às 21h.
Datas:  16/10 a 10/11
Horários: consultar programação (ainda em definição)
Ingressos: R$ 4,00 (inteira) e R$ 2,00 (meia-entrada), por sessão
Lotação: 102 lugares
Horários da Bilheteria: Das 9h as 21h. (tel.: 3808-2052)
Classificação: consultar programação por filme
Acesso para pessoas com deficiência: Sim
Patrocínio: Banco do Brasil
Realização: CCBB
Programação completa: http://www.bb.com.br/portalbb
INFORMAÇÕES AO PÚBLICO
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