“QUEDA” – Eu fui!

Foto: apetecer.com

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Como diz o jornalista e escritor uruguaio Eduardo Galeano, “O medo ameaça: se você ama, terá aids; se fuma, terá câncer; se respira, terá contaminação; se bebe, terá acidentes; se come, terá colesterol; se fala, terá desemprego; se caminha, terá violência; se pensa, terá angústia; se duvida, terá loucura; se sente, terá solidão ” […] “Temos que saber que, na vida, caímos e levantamos várias vezes. E que alguns caem e não levantam mais. Geralmente os mais sensíveis, os mais fáceis de machucar, as pessoas que mais sentem dor ao viver… Em contrapartida, esse filhos da *&¨% que se dedicam a atormentar a humanidade vivem vidas longuíssimas, e não morrem nunca, porque não têm uma glândula, que na verdade é muito rara e que se chama consciência. É a que nos atormenta pelas noites” .

Este pensamento – sobre consciência, culpa – tem muito a ver com “QUEDA”, peça a que assisti esta semana. Ignorando solenemente o fato de que estaria de pé poucas horas depois para minha jornada múltipla diária, o assunto rendeu um bate-papo da cúpula apetecer.com – composta por duas pessoas – que se estendeu até quase as 2 da manhã. Mas isto eu fiz sem culpa. E tento escrever aqui um pouco do que foi conversado e divagado.

O personagem da peça fala, não muito explicitamente, sobre um crime que cometeu, e que o atormenta. Com isto, entra em conflito com os próprios monstros de sua consciência, pois carrega uma culpa muito grande. No caso do personagem é dada a dúvida de que os tormentos de sua consciência são mais por questões materiais e manchas na sua imagem do que o próprio remorso pelo ato cometido. É aprisionado por ela, pois para quem tem consciência, a culpa pode ser a pior das prisões. A de uma pessoa deprimida, por exemplo, é implacável. Traz medos, mania de perseguição, falta de paz. Agora, imagine a de alguém – que possui a característica da consciência – que fez algo fora da lei? Ele, por vezes, parece querer se entregar, para ser julgado logo e pagar pelo que fez. Em contraponto, tem medo dos personagens que interpreta em sua vida social, do que não poderá mais alcançar. Assim, entra em questões existenciais, faz confusão de palavras, tenta se justificar, fala da mídia, do julgamento, da pena de morte. Ao mesmo tempo, não sabe se está vivo ou não. Mas isto também não parece ter tanta importância, porque o peso de sua consciência não o deixa viver.

Foto: apetecer.com

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Também tem medo da opinião pública e quer se afastar dela. Isto nos faz aludir à necessidade da mídia de demonizar determinadas figuras, coisa que o personagem de “QUEDA” provavelmente se tornou. Essas pessoas que são “sorteadas” para saírem em capas de jornais e revistas e suas vidas passam a ser acompanhadas pelo Brasil inteiro. Uma tentativa de promover a catarse, ou seja, para que os espectadores deste tipo de notícia façam a identificação com suas próprias vidas e se sintam superiores por não cometerem tais atrocidades. Aliviando, assim, sua própria consciência. Mas, para quem teve sua vida devassada por um veículo de massa e é inocente, o sofrimento é ainda pior. Já ficou com aquela marca perante a sociedade e, muito mais grave, a mácula em sua personalidade. E o jornal lançou apenas uma errata.

“QUEDA” é a santa inquisição dele mesmo, tentando conversar com alguém, mas não tem ninguém. Só sobrou ele. Entra em um estado de loucura total. Já perdeu seus valores, razão. Todo esse conflito o personagem trava em um “diálogo” com o “homem de bigode”, que parece por vezes um terapeuta, ou Deus, ou até ele mesmo. Quer dizer, sua própria consciência. Só assistindo à peça para tirarem suas próprias conclusões sobre o calvário do personagem, escrito e atuado pelo ator Guilherme Siman. Depois da sessão, acontece uma discussão com os espectadores e também conta com a presença de um convidado. Se eu tivesse assistido depois de escutar algumas coisas que ouvi neste debate, teria agregado outras visões à minha. Mas, depois de ter visto duas vezes, já estou manjada. Acho que terei que ir disfarçada com um bigode florido.

Ficha Técnica:

Texto e Atuação: Guilherme Siman

Direção: Fabiano de Freitas

SERVIÇO

Local: Sede das Cias

Endereço: Rua Manuel Carneiro, 12 – Lapa (Escadaria Selarón)

Informações: (21) 2137-1271

Horário: de quinta e sexta, às 20h

Ingresso: R$ 20,00 (inteira) e R$ 10,00(meia)

Duração: 50 minutos

Bilheteria: abre 1 hora antes do espetáculo

Gênero: drama

Capacidade: 60 pessoas

Classificação etária: 18 anos

Temporada: de 07 de agosto a 29 de agosto

P.S.: Agradeço à Sede das Cias pelos convites.