Estreia de “Frida Kahlo – calor e frio”

Depois de dois anos de pesquisas e turnês, estreia em São Paulo “Frida Kahlo – calor e frio”. A peça, que já passou por Berlim e no país de origem da artista, o México, está começando uma nova temporada hoje na terra da garoa. Enquanto aguardamos a chegada do espetáculo aqui no Rio de Janeiro, conversamos com a dramaturga Viviane Dias. Ela adianta que o enredo é mais voltado para a arte de Frida Kahlo, que é o que mais nos interessa. Vamos fazer uma corrente positiva para que desembarquem logo em solo carioca?

 

Foto: Divulgação

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Palco: Qual a abordagem principal da peça? Vida pessoal? Profissional? A junção das duas?
Viviane Dias: O foco é a arte de Frida. É um texto fundamentalmente lírico, uma dramaturgia aberta que busca um diálogo não só com Frida como personalidade artística isolada, mas com uma época muito potente para o México: o momento em que o país recebeu uma série de artistas – de Eisenstein, a Breton, Maiakóvski, Tina Modotti, a políticos como Trótski. Um momento em que a América Latina surpreende o velho mundo com seus povos nativos, cultura mestiça, mágica e exuberante. E influencia a arte e a filosofia da Europa. Frida e Diego foram embaixadores e anfitriões da grande maioria destes artistas. Assim, a peça se constrói em vários planos. É uma dramaturgia também feminina que interpenetra realidades, de sentidos múltiplos, em diálogo com a arte de Frida. Música, dança e elementos performativos instauram uma escrita cênica que configura o espetáculo como uma festa e um rito artístico.

Palco: Frida Kahlo teve uma vida particular conturbada (questões pessoais, de saúde, etc). Como você vê a influência deste âmbito na obra da artista?
Viviane: “Um artista é um ser humano e um processo criador, impessoal. Enquanto artista, não poderá ser entendido a não ser a partir de seu ato criativo”. Esta frase de Jung orienta a nossa visão do tema. Queremos fugir da abordagem hegemônica em obras sobre a artista, concentradas em sua vida. Sua vida, quando aparece na peça, segue uma lógica lúdica, poética. Ela nos interessa no sentido que configura uma existência que dialoga com um mito: a oferta do sangue à Terra em troca da potência criativa.

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Palco: Você crê que a obra de Frida Kahlo é bem conhecida nos dias de hoje, tanto em seu país de origem quanto aqui? A peça também tem o intuito de reforçar esta memória?
Viviane: Frida é quase um mito contemporâneo. Ainda que sua obra não seja amplamente conhecida e muitas vezes se saiba mais sobre os clichês em cima da imagem da artista. Gostaríamos de oferecer uma outra possibilidade: o diálogo não com a sofrida Frida Kahlo, mas com a potência e individualidade artística. Neste sentido, é um trabalho que reforça menos a memória e mais abre novas constelações de imagens sobre a artista, novas referências.

Palco: O filme “Frida”, de 2002, serviu como referência para a montagem teatral?
Viviane: Não! A escolha principal do filme, baseado em uma biografia de uma americana, foi a vida de Frida. Nosso trabalho é um diálogo artístico e contemporâneo – envolvendo teatro, música e dança – com a obra de Frida. A obra de Frida como alimento antropofágico para uma nova criação.

Palco: A peça irá viajar pelo país. Virá para o Rio de Janeiro?
Viviane: Pretendemos! Por enquanto só temos a estreia em São Paulo e a turnê já realizada no México e Berlim. Mas adoraríamos uma possibilidade de mostrarmos nossa peça no Rio de Janeiro.