Crônica / Conto: “Cabaré Dulcina” – Eu fui!

O prefeito Pereira Passos foi mais uma personalidade a pintar no Cabaré - Foto: apetecer.com

O prefeito Pereira Passos foi mais uma personalidade a pintar no Cabaré – Foto: apetecer.com

20 de julho de 1910. Pego o jornal e vejo na manchete alguma coisa sobre uma inauguração de um novo cais na Gamboa.

O prefeito Serzedelo Correia dava continuidade ao trabalho começado pelo prefeito Pereira Passos e sua equipe de reforma, formada por profissionais renomados, como Francisco Bicalho, Paulo de Frontin e Lauro Müller (Lauro Müller, Charles Miller, acabei me lembrando de Lauro Sodré. Player do Botafogo Football Club, favorito ao título distrital neste ano).

Ideias revolucionárias queriam transformar o Rio de Janeiro numa espécie de Paris tropical. Abriram largas ruas. Principal delas, a Avenida Central. Tinham a estranha ideia de derrubar o Morro do Castelo para arejar o Centro da cidade. Muita coisa vinha sendo feita, na gestão de Sousa Aguiar, que sucedeu Pereira Passos: foram finalizadas as obras do Pavilhão São Luís (Palácio Monroe) – Ih! Não lembro se no governo dele ou no anterior – e Biblioteca Nacional. O estilo meio neoclássico, meio eclético (ouvi estas palavras num bond outro dia), invadia a capital da república, onde um ano antes fora inaugurado o Theatro Municipal.

Entretanto, nem só da ordem e do progresso, como apregoa a nossa bandeira, viviam os cidadãos comuns da cidade, camada a qual pertenço. Para tantas reformas, o lado mais fraco da corda teve que suar. Não digo suar apenas no batente. Digo suar correndo para o entorno das linhas dos trens porque não tínhamos mais onde cairmos vivos, como dizem por aí, já que fomos expulsos de nossos cortiços e cabeças-de-porco que habitávamos. Está certo que tinha muita gente. Por exemplo, no cortiço que me servia de abrigo, moravam mais cinco famílias. Mas era na área central e, apesar de dividir um espaço pequeno com tantas pessoas, ficava perto do trabalho. Está bem, eu conto o que faço, sou funcionário de uma fábrica de tecidos.

Ruy Barbosa e Oswaldo Cruz também abrilhantaram a noite no Cabaré. Personalidades importantes no início do século XX no clima da revista musical - Foto: apetecer.com

Ruy Barbosa e Osvaldo Cruz também abrilhantaram a noite no Cabaré. Personalidades importantes no início do século XX no clima da revista musical – Foto: apetecer.com

Voltando ao dia de ontem, o dia 20. Acordei meio tenso, estava precisando ouvir boa música e ver mulheres bonitas. As polacas da Zig Migdal faziam a festa da gente nos lupanares e cabarés espalhados pela região no entorno da praça Onze de Junho. Todavia, eu não tinha muita inclinação para as polacas, tampouco para as francesas. Meu caso era com Esperança. Brasileira nata, morava próximo ao morro do São Carlos, dançarina no Cabaré Dulcina. Tinha que ficar de olho nos malandros e capoeiras que defendiam Esperança. Dizem que um galego, funcionário de repartição e outro, um capoeira bom de música, não gostavam que ela tivesse muito envolvimento com seus clientes.

Chegando ao cabaré, apesar de não ser a primeira vez que aparecia por lá, sempre é uma experiência surpreendente. Fui logo sendo saudado “pelas mocinhas francesas, jovens polacas e um batalhão de mulatas”. Procurei Esperança e não a encontrei. “Me aboletei na mesa” e decidi curtir a orquestra que dava o tom à noite. Logo comecei a ser cercado pelas funcionárias do local que nada deixam faltar aos seus clientes, nem um bom papo.

Foto: apetecer.com

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O marinheiro João Cândido Felisberto, também faz sua aparição - Foto: apetecer.com

O marinheiro João Cândido Felisberto, também faz sua aparição – Foto: apetecer.com

Para a minha maior surpresa, aquela noite o cabaré estava com uma frequência diferente. Comecei a ouvir uma voz recitando um poema com palavras que nem pareciam estar em ‘brasileiro’. Uma das meninas me informou que se tratava de Bilac, autor do hino da bandeira. Hino que, desde que frequentei as fileiras do quartel, não tinha mais ouvido. E, lembro bem que aquela letra tinha sido composta um ano antes que servi, se não me engano em 1906.

Após esta primeira surpresa, entrou um cidadão dizendo ser Pereira Passos, aquele prefeito citado no início do texto. Ele bradava como se num palanque estivesse. Será que poderia realmente ser o ex-prefeito? Ou então, o cidadão devia ter saudades do político que governou a capital até o último ano e resolveu se passar por ele. Acabou que o papo na mesa ficou meio tenso, com aquela conversa de desapropriação, construção de estacionamento, digo, avenida que cabem todos os automóveis da capital parados. Ou ele era visionário, ou realmente pensava: o pobre que se exploda.

Tudo bem, passou. E, apesar de ser um cabaré, o Dulcina era procurado por quem estava a fim de ouvir boa música e jogar conversa fora. E o clima logo melhorou com o axé de tia Ciata, que morava nas cercanias, e fomentava o encontro de músicos da região. Os entendidos diziam que desses encontros de músicos vinha sendo cunhado um novo ritmo, modernizado, para vir no lugar do maxixe. Era um tum em um tambor e um ta em outro, e assim por diante. Era o chamado samba.

Mesmo após a proibição por lei dos castigos físicos, um marinheiro foi condenado a 250 chibatadas no dia da eclosão da Revolta, em 23 de novembro de 1910 - Foto: apetecer.com

Mesmo após a proibição por lei dos castigos físicos, um marinheiro foi condenado a 250 chibatadas no dia da eclosão da Revolta da Chibata, em 23 de novembro de 1910 – Foto: apetecer.com

Papo vai, papo vem, e o clima ficou tenso novamente quando Ruy Barbosa e Osvaldo Cruz entraram pela porta do estabelecimento com o intuito de vacinar todo mundo. Este tipo de atitude já tinha dado o maior bafafá nos idos de 1904. Queriam também ver se na casa existiam alguns focos de um tal mosquito transmissor de doenças etc. É mole!? Depois daquela confusão da vacinação, o problema também era com os mosquitos? O referido senador e o cientista não sabiam mais se vacinavam, se matavam mosquito e, enquanto isso, o povão continuava vivendo à margem. Nas encostas e, no meu caso, no subúrbio.

Logo que eles se foram, o clima voltou a esquentar, para bem e para mal. Na verdade, para bem. A casa acabava de receber clientes ilustres. O famoso e mítico capoeira Prata Preta, que lutou na Revolta da Vacina, a do parágrafo anterior, entrara na casa. Após ele se apresentar e cumprimentar a todos, fez uma demonstração de sua arte e por todos foi ovacionado. Entrou também João Cândido Felisberto, que servia na Marinha de Guerra do Brasil. O sujeito andava indignado com os castigos físicos que os militares de baixa patente sofriam ainda nos porões das embarcações. Ele chegou a me contar que se a situação permanecesse desta forma, não tardaria para que ele, junto com alguns de seus colegas, fizesse algo para por um ponto final na barbaridade.

O mítico Horácio José da Silva, mais conhecido como Prata Preta, enfrentou o exército na Revolta da Vacina, em 1904. Foto: apetecer.com

O mítico Horácio José da Silva, mais conhecido como Prata Preta, enfrentou o exército na Revolta da Vacina, em 1904. Foto: apetecer.com

A música continuou muito animada. Danças e contradanças também. A noite de inverno carioca, noite seca, temperatura amena, tudo

A Revolta da Vacina, um projeto higienista, impeliu a população a se vacinar contra a varíola. Participação especial, flanando borrado no primeiro plano, ædes ægypt, que já era o indesejável na cidade transmitindo doenças - Foto: apetecer.com

A vacinação em massa impeliu a população a se vacinar contra a varíola. Participação especial, flanando borrado no primeiro plano, ædes ægypt, que já era o indesejável na cidade transmitindo doenças – Foto: apetecer.com

propício para todo aquele divertimento. Foi quando de repente, já depois de algumas doses de vinho, vi um vulto que achei ser Esperança. O vulto se aproximou pela minha direita. Eu estava inerte, nervoso, travado, coração disparado. Quando comecei a sentir sua respiração se aproximar ao meu ouvido, percebi que diria algo. “Beep, beep, beep, beep”, cadê a droga do celular?! Caramba, tenho que trabalhar, acho que perdi a hora. Peguei o celular e me deparei com 21 de julho de 2014. Era tudo um sonho e, nesta aventura onírica, e as lembranças que tive do sonho, pude perceber que apesar de 114 anos de distância, os problemas soam semelhantes.

Muitos dos nomes que apareceram no meu sonho viraram nomes de ruas, viadutos, elevados, hospitais… E as pessoas mal sabem quem foram. E outros, caso tenham recebido homenagens, desconheço-as. Parecem que querem apagar nossa memória.

E qual o porquê do sonho? No dia anterior, o 20, de 2014, fui ao Centro Cultural João Nogueira, no Méier, para assistir ao espetáculo do gênero revista musical “Cabaré Dulcina”. O espetáculo é idealizado por Antônio Pedro e dirigido por Vilma Melo e Édio Nunes. Pude ver atores interpretando estes personagens históricos, muitos deles esquecidos e que fazem parte da história da hoje cidade do Rio de Janeiro. Pude me deleitar com belas canções que também tinham como mote o período histórico do sonho, a Belle Époque brasileira, na República Velha. Excelente montagem, uma verdadeira aula de história da forma mais lúdica e divertida que me lembro de ter acompanhado. Por fim, mudando o que tem que ser mudado, os problemas urbanos da nossa maravilhosa cidade ainda nos incomodam no dia-a-dia. É, pessoal. Coisa de cidade grande.

Nota: Alguns personagens do conto são baseados em personagens do livro “Desde que o Samba é Samba”, de Paulo Lins.

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P.S.: Agradeço à MNiemeyer pelos convites.

LOCAL: IMPERATOR – CENTRO CULTURAL JOÃO NOGUEIRA
http://www.imperator.art.br
ENDEREÇO: Rua Dias da Cruz, 170 – Méier
DATA e HORÁRIO: 19 e 20/07, 26 e 27/07 (Sábados e domingos): 19h30 / 01 e 02/08 (Sexta e sábado): 19h30
INGRESSOS: Plateia sentada: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia)
CLASSIFICAÇÃO: 14 anos