“Judas em Sábado de Aleluia” – Eu Fui!

Noite de sexta-feira 13, fomos nós, o team do palcoteatrocinema.com.br, a uma viagem pelo tempo. Pegamos um trem sentido Marechal Hermes e, quando desembarcamos, percebemos algo diferente no ar. Perguntei a um circunstante onde estávamos e que dia era aquele. Fiquei estarrecido com a resposta. Não era mais 2014 e tampouco sexta 13. E também não era Marechal Hermes. Estávamos diante do Teatro São Pedro onde, em poucos minutos, se iniciaria a última apresentação da noite. Chegamos atrasados, afinal não pertencíamos àquele tempo.  O ano era 1844, quase quatro anos após o ‘Golpe da Maioridade’ que coroou Pedro II, Imperador do Brasil, tempo de incertezas… Como disse, estava atrasado para a encenação. O grupo teatral interpretaria uma comédia de Martins Pena, autor que sempre quis assistir. E uma iniciativa da Companhia Brasileira de Interpretação me possibilitou. Estava em cartaz a peça “Judas em Sábado de Aleluia”.

Trata-se de uma comédia de costume do dramaturgo Martins Pena, escrita em 1844. Patrono da Cadeira n° 29 da Academia Brasileira de Letras, por escolha do fundador Artur Azevedo. Completou o curso do comércio em 1835, mas acabou cedendo à vocação e a frequentar a Academia de Belas Artes. Lá, estudou arquitetura, estatuária, desenho e música. Também estudava línguas, história, literatura e teatro. Certo. Permita-me continuar a viagem temporal ou atemporal que estava vivenciando. Ao adentrar a sala, olhei para o palco, o ano realmente era 1844. Olhei para a plateia e percebi pelas indumentárias que não era 1844, e sim 2014. Eu mesmo portava um aparelho capaz de fixar imagens, uma forma mais avançada de daguerreótipo, uma câmera digital. Nesta viagem no espaço e no tempo, minha confusão começou a se dissipar quando percebi que o palco era um portal para o século XIX. A Companhia nos fazia voltar no tempo, nos trazendo de volta um vocabulário e alguns costumes que mencionarei nos próximos parágrafos.

A encenação atual obedece ao texto original, com o palavreado utilizado na época. Inclusive, a peça retrata uma tradição quase esquecida hoje em dia, o da malhação do Judas, aos Sábados de Aleluia. Mas, mesmo se tratando de algo incomum para os dias atuais, não se pode dizer tal coisa de outros temas do enredo. Mentiras, corrupções, tramoias, jeitinho brasileiro (que não sei se é tão brasileiro assim) são hábitos aos quais estamos acostumados a lidar, tudo interpretado da maneira histriônica que consta a forma a qual o teatro de costume brasileiro realizava, desde a época de João Caetano.

O espetáculo – curtinho, apenas 60 minutos – levou aos palcos 5 atores com a difícil tarefa de interpretar com naturalidade um texto com um vocabulário um pouco diferente do que utilizamos hoje. Mas cumpriram bem o papel. Tanto na interpretação, quanto na tarefa de levar maior acesso ao patrimônio histórico-cultural com um texto do precursor da dramaturgia nacional. É um resgate e uma forma de manifestação de brasilidade ímpar, algo que o país, meio perdido e claudicante, anda carente.

Findando a encenação, fomos a rua tomar um coche que fizesse o caminho sentido São Cristóvão da Estrada Real de Santa Cruz. Demoramos um pouco para conseguir um transporte, o serviço não é muito usual num horário tão avançado. Por fim, passou uma carruagem. O cocheiro, já que passava das 21h (faltava 1/4 para as 10) cobrava bandeira dois. A corrida foi tranquila, assim como a noite de outono na capital do Império. E a bandeira dois fez-me desprender alguns mil réis a mais.

 

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P.S.: Agradeço à Cláudia Bueno e ao Rodolfo Serzedello pelos convites.