Impressões de “Sobre os Mesmos” – Eu Fui!

Ao ler a sinopse e o release de “Sobre os mesmos”, me deparei com alusões à pintura. Não vou entrar no universo da micropolítica e statu quo. Vou me ater a relatar a experiência que tive ao assistir à encenação.

Primeiro o aspecto visual. Olho uma mesa, um açucareiro e me lembro de Pedro Alexandrino. Pintor conhecido pelas suas representações de objetos de metal, reconhecido como pintor de natureza-morta e, tratando-se de representações metálicas, seu volume e seu brilho.

"Sobre os mesmos" na Sede das Cias, na Escadaria Selarón - Foto: apetecer.com

“Sobre os mesmos” na Sede das Cias, na Escadaria Selarón – Foto: apetecer.com

Com a entrada das personagens em cena aliada à iluminação, trouxe-me a memória o tenebrismo de Caravaggio, não só pela utilização do jogo de luzes e um fundo escuro para realçar os detalhes, como também a disposição das personagens na mesa (A Ceia em Emaús, 1601) e a coreografia que o artista utilizava para retratar suas cenas, principalmente bíblicas (não que “a culpa cristã” esteja se apossando de minha consciência, não vou escrever sobre atitude e virtude).

"Sobre os mesmos" na Sede das Cias, na Escadaria Selarón - Foto: apetecer.com

“Sobre os mesmos” na Sede das Cias, na Escadaria Selarón – Foto: apetecer.com

Ainda falando da coreografia e aludindo a narrativa, fui levado nessa viagem a uma montagem de “O Arquiteto e o Imperador da Assíria” (1966), do espanhol Fernando Arrabál. Onde duas personagens perturbadas no aspecto existencial dialogam sobre diversos temas nem sempre diretamente conectados. Lembro-me de uma passagem em que o Imperador reclama do gosto do Arquiteto pelo tríptico “Jardim das Delícias” (1504) de Bosch. E olhar para o “Jardim das Delícias” é, para mim, como olhar para os “mesmos”, numa tentativa de compreensão diante de tantos signos e símbolos.

"Sobre os mesmos" na Sede das Cias, na Escadaria Selarón - Foto: apetecer.com

“Sobre os mesmos” na Sede das Cias, na Escadaria Selarón – Foto: apetecer.com

É como um processo sem fim de construção e desconstrução e processo sem fim me leva à figura da Ouroborus, mítica serpente que morde a própria cauda que traz a infinitude, o retorno, o ciclo. Como o cabelo, o dente, a mulher generosa, Moscou etc. Os elementos voltam, dá a sensação de retorno, de déjà vu. 

Para finalizar, ou começar, ou terminar de começar, ou começar para terminar, vou citar a canção “Desafio dos Doutores” (1982), do compositor gaúcho Teixeirinha:

“E o doutorzinho é um amor/ entendo a sua intenção
Formiga no açucareiro/ quer roer meu coração
Vai tomar umas vitaminas/ para ver se aguenta o tirão

Pra ver se aguenta o tirão/ não precisa vitamina
Tu é louquinha por mim/ eu te conheço menina
Sou forte sou carinhoso/ e entendo de medicina

Entende de medicina/ vamos por um consultório

Pra atender os nossos fãs/ queridos do auditório
Ou eu gostei do doutor/ ou acabou o repertório”

Meu repertório acabou.


SERVIÇO

Temporada: de 07 de maio a 29 de maio de 2014

*Não haverá espetáculo no dia 15/05*

Local: Sede das Cias (Rua Manuel Carneiro, 12 – Escadaria Selarón – Lapa)

Informações: (21) 2137-1271

Horário: quarta e quinta, às 20h

Ingressos: R$ 20,00 inteira / R$ 10,00 meia

Duração: 1h e 15 minutos

Gênero: tragicomédia

Capacidade: 50 lugares

Classificação etária: 12 anos

Bilheteria: abertura 1h antes do espetáculo