Histórias de repressão / opressão em “Morro como um país” – Eu fui!

Depois de um período em São Paulo, “Morro como um país” passou uma curta temporada no Rio de Janeiro, somente até a última sexta-feira, 02/05. A peça compõe alguns dos eventos culturais que aconteceram na cidade para relembrar o golpe de 64. Com entrada franca, o público lotou a Sede das Cias, na Lapa, para conferir a interpretação de Fernanda Azevedo, prêmio Shell de melhor atriz 2013. Eu fiz parte dele.

Fernanda Azevedo inicia o espetáculo sendo ela mesma e passa a interpretar depoimentos de ex-presos políticos de ditaduras, não apenas no Brasil. A narrativa não segue exatamente uma cronologia e lança mão de elementos, como documentos, músicas e vídeos para ilustrar determinadas épocas e fatos.

A cenografia é composta por um boneco de madeira que a atriz veste e movimenta de acordo com o texto que está sendo interpretado -, uma bateria em que se arrisca em um momento e uma penteadeira. Além disso, o figurino também é trocado. No início, com camisetas que estampam figuras de pessoas conhecidas da época da ditadura. Em outro momento, vestida de Carmen Miranda – artista popular no Brasil e em Hollywood entre as décadas de 1930 e 1950 -, cuja fantasia precisa ficar segurando para que a saia não caísse. Assim, faz uma alusão aos uniformes de alguns presos, que tinham que ficar todo o tempo agarrados às calças largas para que não caíssem.

No início dos 90 minutos de peça, o texto se mostra rápido e confuso. Por conta disso, até de difícil assimilação. As repetições de frases e de gestuais lembram características de Teatro do Absurdo, tendência teatral surgida no pós-Segunda Guerra Mundial, no fim da década de 1950.

A comicidade e interatividade esta última que a atriz já percebeu que o público carioca adora, só que não (rs) estão presentes em uma brincadeira de “Vivo ou morto”, em que Fernanda encarna a própria ditadora, ordenando que seus espectadores / oprimidos ajam de acordo com suas ordens. Mas tudo isso de uma forma descontraída, para aliviar o espetáculo tenso que estava se desenrolando e que ainda estava por vir.

Como citei acima, a atriz Fernanda Azevedo venceu o prêmio Shell de melhor atriz com esta peça. Não sei a respeito da concorrência mas, pelo que vi, foi merecido. A artista é muito expressiva e, com seus olhos azuis – por vezes marejados – possui a dramaticidade necessária nos momentos certos. Além do fato de conduzir momentos de tensão e outros de descontração com desenvoltura de apresentadora de talk show.

A temporada de “Morro como um país” já chegou ao fim, após somente duas semanas. O grupo Kiwi foi o responsável pela montagem, apresentada na Sede das Cias, parceira do site, a quem agradeço pelos convites.

 

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