“Hoje eu quero voltar sozinho” – Eu Fui!

Estreou no dia 10 de abril o filme nacional “Hoje eu quero voltar sozinho”, do diretor e roteirista Daniel Ribeiro. O longa tem origem em um curta metragem de nome “Eu não vou voltar sozinho”, que foi sucesso de visualizações no youtube. Nele, Ribeiro expressa sua intenção de expor as formas de amor. “Minha ideia era falar de um garoto que nunca tivesse visto um homem ou uma mulher – e que se apaixonasse por um cara. E então achei que tirar a visão do personagem seria um bom artifício para falar justamente dessa questão de como acontece a atração e o interesse por outra pessoa – sendo cego, outras sensações e sentimentos ganhariam força”.

O amor é cego? Piero della Francesca Cupido vendado, 1452

Bem, como estou escrevendo para a coluna “Eu Fui!”, fui assistir ao longa no Cine Odeon, uma das salas aqui do Rio de Janeiro que o exibe. Vi e tive um bom efeito cinema. Despertou-me uma divagação. Vamos a ela:

Já dizia a personagem Helena – de “Sonhos de uma noite de verão”, de William Shakespeare -, “O Amor não vê com os olhos, mas com a mente; por isso é alado, e cego, e tão potente”.

O Amor na citação não inicia em letra maiúscula por um acaso, à toa. Ele é referente ao deus grego do amor Eros, que “segundo a maioria dos poetas, nasceu de Ares e Afrodite. Assim que viu o dia, Zeus, que entreviu em sua fisionomia todas as perturbações que ele causaria, quis obrigar Afrodite a desfazer-se dele. Para furtar-se da cólera de Zeus, ela o escondeu nos bosques, onde mamou o leite dos animais ferozes. Assim que foi capaz de manejar o arco, fez um freixo, empregou o cipestre para as flexas e experimentou nos animais as flechadas que destinava aos homens. Depois trocou seu arco e sua aljava por outros, de ouro”.

Posso, também, citar “O Banquete”, de Platão. Texto onde seis próceres da Grécia antiga, se encontram após uma Dionisíaca para discorrer em louvor a esta divindade. E, em meio ao discurso de alguns deles, aparece a figura de um Eros terrestre, ligado ao desejo e, por outro lado, um Eros celestial, ligado ao amor puro. Um amor das almas.

Eros, o grego, costuma ser artisticamente representado como um rapaz alado, viril. Todavia, a imagens mais comuns do Cupido ou Amor, são representações de um menino ou adolescente alado, o que nos remete à forma de um querubim, ou melhor, um dos putti da arte renascentista, ou seja, um anjinho. O Amor é às vezes retratado com os olhos vendados, seus carcás e suas flechas.

É, pessoal. Enquanto, para uns, o amor é cego, para Apuleio, em “O conto de Amor e Psiqué”, o Amor não agia vendado. Ele era um brincalhão, que “vivia” às custas de se divertir com as vicissitudes da vida a dois, que pode derivar para uma vida a três, quatro etc.

William-Adolphe Bouguereau Jovem se defendendo do Cupido, 1880

William-Adolphe Bouguereau
Jovem se defendendo do Cupido, 1880

Então, voltemos ao filme. Ele conta a história de três adolescentes em plena fase de mudanças e conflitos tão típicos da idade. Só que sob uma ótica um pouco diferente. Quer dizer sem ótica, assim como a representação do cupido vendado.

Digo isso porque a história do filme gira em torno de Leonardo, adolescente cego que, além das dificuldades naturais pelas quais tem que passar, ainda precisa enfrentar a implicância dos colegas de escola. Tudo isso se torna menos complicado com a ajuda da melhor amiga Giovana, que o auxilia nas tarefas diárias. Depois, também é auxiliado por Gabriel, menino novo na cidade e no colégio. Com seu nome e cachinhos de anjo, provoca ciúmes e desejos na garota. Gabriel e Leonardo logo se tornam grandes amigos. A dupla vira trio, e mesmo inconscientemente, Gabriel provoca um estremecimento na relação entre Giovana e Leonardo.

A adolescência é uma fase de descobertas e confusões. Leonardo tem a sua psiqué perturbada, com noites sem dormir, negação da personalidade, tentativas de fuga física ou química da realidade opressora, mas bondosa, de pais superprotetores. “Hoje eu quero sair sozinho”, é mais que o título do longa, é um grito que sai do âmago do protagonista, da sua alma.

Portanto, para Gabriel, Leonardo é o Amor vendado, que atira suas flechas de forma pura, sem a interferência da visão que, a priori, poderia direcionar suas escolhas. Discordo da fala da Helena de Shakespeare quando diz que o Amor vendado vê com a mente. Acredito que veja com os olhos da alma. Já para Leonardo, o roteirista e diretor Daniel Ribeiro é o Amor de olhos abertos, que experimenta de forma deliberada com seus sentimentos e desejos. “Hoje eu quero voltar sozinho” discorre sobre o amor desprovido de interesses e preconceitos, o amor genuíno, essencial, assim como a idéia original da trama.

FICHA TÉCNICA

Duração: 96′

Ano de produção: 2014

País de Origem: Brasil

Elenco:

Leonardo: Ghilherme Lobo

Gabriel: Fabio Audi

Giovana: Tess Amorim

Laura: Lúcia Romano

Carlos: Eucir de Souza

Avó Maria: Selma Egrei

Karina: Isabela Guasco

Guilherme: Victor Filgueiras

Fabio: Pedro Carvalho

Carlinhos: Guga Auricchio

Roteiro e Direção: Daniel Ribeiro

Produção: Daniel Ribeiro e Diana Almeida

Referências:

COMMELIIN, P. Mitologia grega e romana

SHAKESPEARE, William. Sonho de uma noite de verão

APULEIO, Lucius. A metamorfose ou O Asno de ouro

PLATÃO. O Banquete

 

Melhor filme do ano no nosso Top 5 2014:

https://palcoteatrocinema.com.br/2014/12/07/top-5-eu-fui-filmes/