Todos os musicais em um só – Eu fui!

Já tiveram a experiência de 90 minutos ouvindo canções de Chico Buarque? Eu tive! Aliás, mais que isso. O espetáculo teatral “Todos os Musicais de Chico Buarque em 90 Minutos” , da dupla Claudio Botelho e Charles Möeller, dura cerca de duas horas e faz um passeio por canções de musicais do artista. Dentre eles, “Morte e Vida Severina”, “Roda Viva”, “O Grande Circo Místico”, entre outros.

Além de Chico, a inspiração do musical é o espetáculo inglês “Todas as Peças de Shakespeare em 97 minutos”, do grupo ‘The Shakespeare Reduced Company’, no qual misturam enredos e personagens de William Shakespeare. Na adaptação brasileira, uma companhia mambembe de teatro – liderada por um casal de artistas, Carlos (Claudio Botelho) e Dora (Soraya Ravenle) – viaja apresentando seus espetáculos ‘pelo mundo’. Enquanto isso, acontecem amores, ciúmes, intrigas. Sem deixar muito claro se a turnê ocorre apenas em devaneios de Carlos, atormentado por uma perda de memória.

Mambembe também pode parecer a minha opinião a respeito do cenário e do figurino (rs). O visual austero da cenografia destoa da maior parte do que conhecemos da obra de Chico Buarque. É  formado por partes fixas com linhas ortogonais direcionando o olhar especificamente para o centro do palco. Há também partes móveis com diagonais que, vez por outra, são deslocadas pelos atores e dá a ideia de movimento e remetem a algumas manifestações de estilos arquitetônicos.

Um elemento cenográfico que muito me chamou a atenção foi uma escada de metal colocada no centro do palco na canção “Pedaço de Mim”. Os personagens se movimentavam com lanternas. A soma da iluminação manual com a escada, me pareceram desencontradas em relação aos versos melancólicos entoados pelos artistas.

A brasilidade, tão presente em suas músicas, também não é muito representada no figurino. Confuso e, se não fosse o fato da companhia liderada por Carlos (Botelho) se autodefinir mambembe poderia ser um ponto negativo. Contudo, não chega a comprometer o musical.

Excelentes cantores, muitos já conhecidos de outros musicais, cumprem muito bem seus papeis e emocionam o público. Eles são Soraya Ravenle, como Dora, “A Primeira Dama”; Claudio Botelho vive Carlos, “O Dono da Companhia”; Estrela Blanco, Rita, “A Mocinha”; Felipe Tavolaro é Dito, “O Galã”; Davi Guilherme; Lilian Valeska interpreta Lea, “A Cartomante”; Renata Celidonio é Lia, “A Cigana; e Malu Rodrigues, Margarida.

Muitos dos sucessos da trajetória de Chico são representadas. Inclusive em situações inusitadas, como o dueto em “O meu amor”,  cantada por Tavolaro e Guilherme, música conhecida por interpretações femininas. Em “Ciranda da bailarina”, o elenco se fantasia de bebês e cantam como tais, em imitações perfeitas e divertidíssimas. “Geni e o Zepelin” foi praticamente declamada por Botelho. O restante dos atores mostrava placas, cada um com uma palavra da letra da música. E iam trocando conforme a canção evoluía.

Com arranjos muito bons e remodelados, os “90 minutos” de peça mostram em um espetáculo atemporal que Chico continua ‘paratodos’, sua obra gravada feito tatuagem, contemporâneo, cotidiano, um eterno encantador do meu suburbano coração.

 

“Todos os Musicais de Chico Buarque em 90 minutos” segue em cartaz no Teatro Clara Nunes, no Shopping da Gávea, até o dia 27 de abril.

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